Zé Bob na moral

Ser um cachorro tem lá suas vantagens.

Em meados de 2008, a Globo exibia em seu horário “nobre” a novela A Favorita. Nela, o ator Carmo Dalla Vecchia vivia Zé Bob, um jornalista metido à bom moço. Nessa mesma época, um dos meus irmãos via sempre, em frente ao trabalho, um cachorro vira-lata perambulando pela rua, talvez na esperança de ganhar o almoço do dia, vindo de alguma alma humana caridosa.

Simpatizado pelo carisma malandro do vira-lata, meu irmão o levou pra casa. Deu a ele o nome de Zé Bob, em homenagem ao protagonista da novela. “Vai ficar em casa só por alguns dias”, disse ele. Até hoje, Zé Bob perambula pela casa dos meus pais, balançando seu rabo de espanador.

E não faz muito tempo, em algum fim de semana que estava visitando meus pais, Zé Bob me ensinou bastante sobre as vantagens e desvantagens de ser um cachorro. E tudo isso começou por causa de um queijo quente.

Eu tenho o toque de precisar assistir algo (na tv ou no computador) enquanto como. Naquele fim de semana fiz um queijo quente, mas o deixei irresponsavelmente sozinho na mesinha de centro da sala. Zé Bob não titubeou. Abocanhou o lanche e o levou pra longe.

(Óbvio que não bati em Zé Bob por isso. Aliás, em hipótese alguma eu bateria em Zé Bob. Jamais maltrate animais. Além de escroto, isso é crime ambiental).

“Justo”, pensei, conformado pela minha perda. E enquanto me dispunha a fazer novamente a receita, me vi pensando: adiantaria eu ficar bravo com Zé Bob? Ele entenderia minha mensagem de indignação, se eu expusesse repetidas vezes minha insatisfação frente ao ocorrido?

Acredito que não.

É privilégio de alguns animais (como os humanos) serem dotados do que chamamos de moral. A Moral pode ser considerada um direcionador de comportamento em uma situação desprovida de controle (seja por forças da lei, religião, ideologia ou qualquer outro dogma). É uma decisão tomada exclusivamente por índole, pelo caráter do praticante. Fatores externos ficam de fora.

Faça esse paralelo: em um ônibus, há assentos preferencias para idosos, certo? Então, se você está sentado em um assento preferencial e avista um idoso em pé, você é obrigado (por lei), à conceder seu lugar. Isso se não quiser arriscar tomar alguma sanção.

Agora, porém, pense que você está em um assento não-preferencial e avista o mesmo idoso em pé. Decidir em dar ou não a ele o assento é uma decisão moral. É uma escolha que parte exclusivamente da sua consciência, das suas convicções, vide que você não sofrerá nenhuma sanção da lei (no máximo alguns olhares tortos vindos do público).

E o que isso tem a ver com o furto praticado por Zé Bob?

Zé Bob não pauta suas ações pela moral, e sim por instinto. A única coisa que Zé Bob interpreta na situação de haver um queijo quente dando sopa na mesa é: há um queijo quente dando sopa na mesa. É natural que ele se aproveite da oportunidade.

Fosse um humano no lugar de Zé Bob, a decisão não seria tão simples. A moral bateria na porta, indagando a dignidade do praticante em afanar o sanduíche alheio. O sentimento de “isso é errado” viria à tona, assombrando tal alma humana em ficar na bad, pelo delito que estaria prestes a cometer.

Zé Bob, por sua vez, afanaria meu lanche quantas vezes pudesse, e jamais se sentiria culpado por isso. Mesmo que eu ralhasse com ele sempre que roubasse minha comida, ele não seria capaz de entender o porquê deu sempre ficar bravo. Zé Bob apenas pensaria: “Ok, por algum motivo que desconheço, quando pego a comida, o humano se irrita. Melhor não pegar a comida, então.”

Eis a dádiva em ser um cachorro. Viver sem arrependimentos. Porque você vive com base em instinto. Sem dramas morais. Sem reflexões existenciais sobre o certo e o errado, a vida e a morte. Apenas vivendo.

Mas o que para alguns é dádiva, para outros é maldição. Zé Bob nunca refletirá, portanto, sobre um outro jeito de se viver. Um jeito que talvez fosse melhor, que trouxesse mais felicidade. E eis o poder que tem os humanos, com sua moral: a possibilidade de viver sem estar engessado aos seus instintos. Em poder refletir sobre o que faz, e porquê o faz. A possibilidade de perceber se é feliz, e se não é, o que fazer para mudar.

Ainda assim, os humanos sempre vão estar na berlinda: eu fiz as escolhas certas? Eu fiz tudo o que podia para ser feliz? E aquela escolha, será que foi errada? Dá tempo de consertar, será?

E enquanto eles refletem, Zé Bob abocanha mais um queijo quente.

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