Compartilhar ou não as fotos dos filhos na Internet?

David Nemer
Sep 6, 2018 · 4 min read

Os debates sobre compartilhar fotos de bebês ou crianças em redes sociais são sempre acompanhados de comentários polêmicos- ainda mais nesses tempos onde pessoas são julgadas, e até humilhadas, por motivos como ter um filho por parto por cesariana. Em média, um pai ou mãe, postará em torno de 1.000 fotos de uma criança nas suas redes sociais antes que a criança complete 5 anos. Os pais dificilmente pedem permissão às crianças antes de postarem as fotos, e muitos nunca verificam suas configurações de privacidade, embora as fotos geralmente contenham dados sobre o local onde elas foram tiradas- um alerta para os pais a terem mais moderação nesses compartilhamentos.

Dentre vários motivos para o sim e para o não, nessa coluna, eu apresento um motivo para compartilhar e um outro motivo para não compartilhar as fotos online. Assim, convido todos a refletirem sobre essas duas questões para os ajudarem a tomarem decisões informadas.

SIM: Em tempos de isolamento, esses compartilhamentos podem ser uma boa maneira de se construir uma comunidade.

Compartilhar fotos de seus filhos em rede sociais pode ser uma experiência gratificante e uma maneira de se conectar com outros pais. Mas você deve estar preparado para ser responsável sobre o que postar. O grande motivo para compartilhar é construir comunidade. Criar filhos na correria dos dias de hoje é um esforço que pode levar os pais, e as famílias, ao isolamento. Muitos pais veem nas fotos compartilhadas nas redes sociais uma maneira de engajar com amigos e parentes, já que o nosso corrido estilo de vida não proporciona tantos encontros offline.

Muitas pessoas temem que essas imagens se espalhem mais do que o pretendido. Mas talvez isso possa se tornar uma oportunidade para fortalecer o relacionamento com uma série de amigos que nem sempre estão na lista direta de contatos dos pais.

Como crítico de tecnologia, eu argumento que a Internet pode gerar diversas consequências que ainda não conhecemos- já que essas fotos podem ficar armazenadas “para sempre” em máquinas que nem sabemos onde estão e o que fazem com tais fotos. Quando se trata de novas tecnologias, sempre haverá repercussões imprevisíveis — mas também sempre haverá novas soluções. Em vez de temer o desconhecido, podemos abraçar o mundo digital e tudo o que ele tem a nos oferecer, interagindo com ele de maneira civilizada e digna. Afinal, pais e mães já tem muitas coisas para se preocuparem para deixarem futuras incertezas ditarem as decisões atuais.

NÃO: Essas fotos violam a privacidade sem que uma criança dê consentimento.

Duas questões centrais para serem consideradas são privacidade e consentimento.

Grande parte dos nossos dados e compartilhamentos são hospedados em sites nos quais não temos controle sobre o que acontece com eles e também onde esses dados são usados. As fotos que os pais postam podem acompanhar as crianças desde o nascimento até os seus últimos dias, à medida que seus dados são vendidos e revendidos pelas redes sociais às empresas de marketing. Isso é uma importante questão que não se debate muito no Brasil, já que essas ações podem reforçar preconceitos e barreiras à medida que os profissionais de marketing decidem que tipo de pessoa alguém é, que tipos de conteúdo serão comercializados para eles e até mesmo que tipos de empréstimos financeiros podem ser oferecidos baseados em seu passado. Portanto, há provavelmente implicações a longo prazo desses perfis de dados que ainda não entendemos.

Também pode ser difícil para os pais terem em mente quem é seu público real. Em suas postagens, eles podem ter como alvo os avós ou parentes próximos, mas como vamos acumulando “amigos” no Facebook durante o decorrer dos anos, é difícil termos uma impressão verdadeira de quem tem acesso às fotos das crianças- com certeza você não se sentiria à vontade de pessoalmente mostrar uma foto sua de sunga/biquíni com seu o filho nu ao vizinho que acabou de se mudar mas que já virou seu “amigo” no Facebook. O compartilhamento online é problemático já que as fotos que as pessoas acham que são particulares podem acabar ganhando vida pública.

Há a questão crucial do consentimento. As crianças raramente têm a oportunidade de concordar em ter fotos de si mesmas compartilhadas on-line pelos pais, e quando são perguntadas, elas podem não entender completamente o que estão consentindo. As crianças muitas vezes não têm o controle sobre como elas são retratadas e não têm o entendimento dos comentários de outras pessoas feitos sobre elas. Elas podem não entender como aquela foto embaraçosamente fofa, que os pais compartilharam, pode voltar a assombrá-las anos depois, quando bullies ou futuros empregadores descobrem essa foto.

Isso não quer dizer que os jovens não cometam erros ao gerenciar suas próprias identidades on-line. Mas permitir que eles mesmos criem essas identidades, em vez de seus pais, pode ser uma parte importante no desenvolvimento da sua independência.

Texto baseado no debate com Morgan Ames e Lauren Apfel.

David Nemer

Written by

Assistant Professor of Media Studies at the University of Virginia. Author of Favela Digital http://dnemer.com