Hedonismo

A dificuldade em descrever a experiência psicodélica se deve, entre outras coisas, à natureza paradoxal das interpretações insuficientemente profusas que ela nos inspira. Além disso, somos paradoxalmente condicionados por natureza pela forma como interpretamos o mundo, ao mesmo tempo descobrindo e projetando nele nossos significados, ainda que, nesse caso, possamos nos sentir um pouco mais iluminados pela experiência ou destituídos do que projetar nela, já que parte dessa iluminação* é perceber que não podemos concebê-la de forma mais do que meramente conjectural. Assim, sentindo o que escrevo escapar-me entre os dedos e minhas palavras contar tanto quanto criam, procedo o relato de minha mais recente incursão à realidade crua**.

Após consumir 4,5g de cogumelos psicoativos ao nascer do dia, a espera era como estar diante do mar em refluxo, suspenso pela sua calma pressagiosa. Quando avisto ao longe a onda que se aproxima, sinto uma apreensão momentânea por não ter mais volta nem refúgio em terra firme. Porém, antes mesmo da onda se quebrar, percebo que a firmeza da terra é apenas aparente, e que meu refúgio não está em me agarrar mas em me desprender dela. Nas últimas notas de Dança Espanhola, na iminência do arrebatamento, apanho o bong, coloco Bob e acendo ao som de Easy Skanking.

Nesse momento me explodo, adornando o mundo com cores e arquétipos humanos nos contornos das nuvens e nas ranhuras das folhas; relembro como enxergá-lo, e me surpreende a familiaridade de ver o que foge e sentir o que transborda das definições que embalam meus devaneios diários, cujas dimensões, assim como as do ambiente, se explicitam e se transfiguram. Redescubro a obviedade em rir e amar, em ser uma extensão dos outros e em me estender também por todos, enquanto vivo em cada fôlego paixões shakespearianas. Emoções me inundam, mas não me encontro mais nelas: sou a uníssona polifonia da existência, oscilando eternamente agora.

Sublime! Mas se a montanha nos é revelada, ainda temos que escalá-la por nós mesmos. Se a inefabilidade dessa experiência me inspira/corrobora uma filosofia, é a da inseparabilidade de todos os seres e da natureza, do que se segue que cometer o mal contra o próximo é atentar contra si próprio(a), e que só evoluímos beneficiando uns aos outros em nossa escalada.


*Não me refiro a uma iluminação espiritual, e talvez me contradiga projetando valores aparentemente espirituais nessa experiência uma vez que subscrevo à ideia de que ela seja “apenas mais um jogo condicionado por regras arbitrárias”, como diz Eduardo Pinheiro (Padma Dorje) em seu artigo “Vendendo Psicodélico por Lebre”. E se por um lado vejo um possível valor terapêutico em tais experiências, por outro o considero, assim como a própria “viagem”, impermanente e possivelmente ilusório.

**Licença poética, não quero dizer que seja a realidade última das coisas.