Liberalismo e a diferença entre garantir a liberdade e determinar o que fazer com ela

Existe uma diferença significativa entre proteger (ou garantir) a liberdade e decidir o que fazer com ela.

O liberalismo político e econômico está relacionado ao primeiro aspecto, ele visa garantir que as pessoas sejam livres para transacionar das mais diferentes formas desde que exista ausência de coerção (seja ela física ou na forma de fraude). Ou seja, o liberalismo como filosofia política e econômica visa proteger direitos negativos das pessoas: vida, liberdade, propriedade, expressão, ir e vir, associação, trabalho, etc. Ele basicamente trata sobre o que se pode ou não pode fazer, no sentido do que terceiros podem ou não limitar na minha ação. O liberalismo, portanto, é por si só agnóstico quanto àquilo que cada um vai fazer com sua própria liberdade (o que se deve fazer).

Há teóricos liberais que basicamente não fazem julgamento moral nenhum sobre o valor de cada ação. Para eles, não haveria diferença moral alguma entre usar a sua liberdade para morar num porão escuro, só comendo cheetos, fumando maconha e cheirando coca, assistindo filmes pornô, cultivando dreads na barba, ou usar a sua liberdade para construir casas para refugiados por tragédias naturais, educar criancinhas de comunidades pobres, promover a preservação de mananciais, desde que nas duas situações não haja violação de propriedade e liberdade alheia.

Por outro lado, há teóricos que fazem essas diferenças morais. Como liberais, eles não advogavam o uso do Estado para promover um valor ou outro. Como liberais, eles foram entusiásticos contra o uso do Estado para promover uma fantasia em detrimento de quaisquer outras. Mas em suas vidas e em suas obras pregavam essa distinção. E como isso seria feito? Simples: lembrando-se que existe um oceano de possibilidades entre o individualismo atomista e o coletivismo coercitivo estatal. Existe uma sociedade civil que está aí para se organizar e promover coisas boas (e ruins) de forma não coercitiva. Existe uma capacidade do ser humano em usar o seu discurso para promover valores e para convencer seus semelhantes de que um posicionamento A ou B é melhor — sendo que ninguém será obrigado a risco de bala ou prisão a seguir determinada linha. E isso é essencial!

Lembrem-se: Adam Smith escreveu a Teoria dos Sentimentos Morais mais de uma década antes de a Riqueza das Nações, por exemplo. Bastiat em seu A Lei e em Ensaios Sobre Economia Política também trata dessas diferenças. John Stuart Mill também o faz com frequência, sendo o tema mais abordado por uma parte dos liberais a sua defesa de um feminismo igualitário.

O triste é ver gente atacando um posicionamento sobre “o que fazer com a liberdade” como sendo anti-liberal só por discordar dele e se esquecendo da grande diferença que existe nesse debate entre proteger/garantir a liberdade e decidir o que fazer com ela.

Boicotar — e promover um boicote público a — uma exposição de arte, desde que sem a exigência de força de polícia para o fechamento de tal empreitada, é tão liberal quanto boicotar — e promover um boicote público a — um canal de TV que seja financiado por uma Igreja (seja ela qual for). Criticar os dogmas de uma religião é tão liberal quanto criticar os dogmas de um culto político (seja ele qual for). Não dar plataforma em um espaço privado para um evento é tão liberal quanto se recusar a vender produtos para qualquer grupo. Não havendo coerção, o liberalismo político/econômico se mantém.

Quer criticar o amiguinho que não gostou da exposição do Santander e fez boicote, textão e se manifestou contra ela? Pode fazê-lo, mas só use o rótulo de anti-liberal se o colega pediu que a polícia intervenha.
Quer criticar o amiguinho que acha a exposição do Santander a última Coca-Cola do deserto e que ela deveria ser mantida a qualquer custo? O faça. Mas só chame o seu coleguinha de coletivista e anti-liberal se ele quiser usar coerção para vir te calar.

Sejamos grandinhos. Vamos aprender a diferença entre proteger/garantir a liberdade e entre o que cada um pode/deve fazer com ela. Um judeu turco adereçando a gregos há quase 2000 anos já falava — em um tom bem liberal que provavelmente inspirou muita gente que a gente cita hoje em dia — “tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”, vamos aprender com ele.

(Originalmente publicado como post no Facebook.)

Like what you read? Give Davi Lyra Leite a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.