15/mai/2015
Atravesso a rua e não sei de novo porque não testo a sorte contra o fluxo do tráfego. Lembro de ti. Mantenho preso entre os dedos o cigarro que a minha garganta repeliu e os dejetos da cidade me tocam. Lembro de ti mais uma vez e vejo pairados sobre os meus os teus olhos crus. Sinto-me só. Piso a calçada e sou a poça de lama em que cuspi. A última veia exaltada de uma criatura moribunda que dorme ao relento e há de morrer de frio. Tenho fome. Sou a voracidade de um sem-número de agentes microscópicos que comem um galho enegrecido pelo pé. Dez dos vinte caranguejos que dançam, extasiados, sobre as vísceras que já pertenceram a mim. Sou eu e só eu a corporificarão mais fidedigna do arquétipo do Estrangeiro. A plenitude não me pertence. O sentido de tudo me escapa. Não sou. Não passo de uma série de fragmentos imagéticos imprestáveis e sem qualquer nexo. Finda o meu delírio esteta: não sou ninguém e não serei nada.
Um tanto melhor.