Complicado mundo de gente grande.

Imagem: Versos, abstrações e tons de cinza.

Tudo parecia tão mais simples quando na infância. As ofensas dramáticas não carregavam tanta agressão. As dores não doíam tanto, os amparos não tardavam, a vida passava ligeira com sempre algo a se fazer. Sempre uma brincadeira a brincar, uma corrida a correr, um canto a se esconder, um sorriso a sorrir. Sempre um escorregão para arranhar o joelho, para chegar em casa sujo de areia, para se divertir na rua que ainda não era asfaltada. Tudo era tão menos complicado, tão menos banal. O sujo era tão menos imundo, a inocência era tão menos rara, a gentileza era tão mais visível. Complicado esse mundo de gente grande. Esse mundo em que andamos olhando para os lados sedentos por nos esconder de armas, abordagens criminosas, miras e olhos drogados. Não vejo mais a inocência da sinceridade ou a polidez da flexibilidade. Falta mais liberdade, sobra tanta repressividade. Não se pode fazer isso, tem-se que rotular aquilo, condenável, condenam. Tão mais falsa a sensação de liberdade, não se é livre, se finge ser, fingem ser, fingem. Ainda não aprendi a fingir. Se faz, cochicham, se persiste, apontam, se não para apesar das críticas, afastam-se. Que bela liberdade essa, não? Sinto falta do mundo ora em câmera lenta daquela infância, da maldade que palavras inocentes ganhavam no mundo ampliado dos sentidos infantis. O mundo todo do tamanho do quarteirão de casa. A bola que rolava na rua de terra, os braços curtos que se empurravam nos “peguei”, “é você”… Sinto falta de uma infância que nunca tive vontade de deixar, diferente de tantos outros que logo queriam crescer. Saudades de um tempo que visto de hoje parece tão distante quanto fascinante. Sinto as mesmas saudades que sentirei desse tempo, dessa melancolia, desses textos que aqui deixo, dessa vida que aqui vivo, dessa juventude que problematizo. Agora não sinto falta, não sinto falta da intolerância, não sinto falta das discriminações, hoje não sinto falta de hoje. Ainda não aprendi a deixar de ver o mendigo na rua, aquele que drogado tira a própria camisa para limpar para-brisas. Ainda vejo a lama na rua. Ainda tento calcular uma rota segura o suficiente para evitar ser banhado por um espirro que o impacto da roda acelerada de um carro ou ônibus pode causar na poça de lama. Ainda vejo os panfletos no chão. Sinto o mau cheiro das bocas de lobo transbordando. Vejo os motoristas na contra-mão, no celular, parados na faixa. Já aprendi a não andar na faixa. Aprendi que se gosto de algo, não gosto, só faço, ouço, leio ou falo para incomodar alguém que não sei quem é, mas que insiste em dizer que é só para parecer algo que não sou. Aprendi que sinal amarelo não é de atenção para parar, mas de atenção para acelerar antes que o sinal feche. Desaprendi tanta coisa… Por vezes sinto falta… Falta da simplicidade infantil, dos trejeitos de criança, da ignorância do tempo. Mundo complicado esse de gente grande, mundo de gente grande com tanta gente baixa… Mundo de gente grande era o mundo de criança… O mundo do tamanho do quarteirão, brinquedos em cacos de tijolos, a areia da rua ainda não asfaltada, a inocência de corpos suados perseguindo uns aos outros a movimentar a brincadeira de pega… Suspiro profundo lembrando das brincadeiras. Suspiro enfadado pendurado nas hastes de um ônibus lotado ao som de buzinas tão barulhentas quanto ineficientes. Ao som dos freios, das tragadas de fumaça, ao som das ofensas, ao cheiro dos escapamentos… Complicado mundo de gente grande, mundo de criança sim que era grande…


Originalmente publicado em www.talpensante.com, em 2012.

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