Meu mito preferido

De algum lugar do Google Imagens.

Há um ou dois tempos, os principais problemas desta crônica seriam: ser longa, hiperbólica e antiquada demais para os formatos de escrita e leitura contemporâneos. Há um ou dois tempos, minha principal dificuldade seria como selecionar o que quero dizer no meio de tanto que acredito haver para ser dito. Seria decidir entre usar a primeira pessoa e parecer narcisista ou usar a terceira, e parecer indiferente. Seria calcular com calma uma frase de efeito ou fingir despretensão com um texto de barba por fazer. Seria pensar demais. Mas isso faz tempo. Um ou dois.

Hoje, o problema desta crônica, talvez, seja o cada vez mais inevitável “mais do mesmo”, o repetitivo, a sensação de já ter lido algo assim em algum lugar assim escrito por alguém assim. Talvez, seja seu pouco real impacto na vida de quem lê em relação ao impacto na vida de quem escreve. O que é gravíssimo na era em que se escreve para alguém que lê e não por alguém que escreve (essa tá difícil!). Hoje, minha principal dificuldade é descobrir o que dizer no meio de tanto que já é dito e que só me convence mais a ficar em silêncio, contemplando. É contrariar todo o meu eu-fluido que diz, com razão, o quão desnecessário é estar aqui, escrevendo. É me esforçar para continuar tradições íntimas que só existem por pura insegurança existencial. E isso é hoje. Ou ontem.

Meu espírito para 2016

Esses dias, conversando com um amigo, confidenciei que não “senti” a velha emoção de fim de ano. Vá lá que também não tenha acontecido ano passado, mas de novo? Os pisca-piscas de Natal, as retrôs da TV, as mensagens dos grupos de whatsapp… “E daí que o ano acabou?”, era o que pensava meu eu-fluido. O amigo perguntou minha idade. “Foi por aí que eu também deixei de acreditar no fim do ano”. Me senti como uma criança que descobre que a Páscoa não tem coelho, que ele não bota ovos e que eles não são de chocolate. “Pra mim, hoje, é só um recesso e um porquê para reunir familiares. O tempo é contínuo, o chato é que o recesso não”. Aí, o desencantamento do mito do calendário novo. Adultescer é um desencantar sem fim!

Apesar dessa crise (alguém mais não aguenta mais ouvir isso?), o mito do calendário novo continua sendo o meu preferido. Por ser um dos mais generalizados, é um dos únicos que nos dá chances reais de renovação, pois todos aceitam que todos (se) renovem, afinal o ano virou! Todas as mágoas, os rancores, as brigas, as bads, os crushes que não crusharam, os insucessos, tudo ficou soterrado no ano que acaba à meia-noite. Todas as paixões, os afetos positivos, os encontros, os bons momentos, as conquistas, tudo ficou eternizado no ano que acaba à meia-noite. Daí ser meu mito preferido. Sem falar de como é inteligente unir o útil (a necessidade essencialmente humana de fatiar o tempo) ao agradável (a chance de fazer diferente).

Essa década de 2015, digo, esse ano de 2015, em meio à sensação de “chega 2018 e não chega 2016”, caí na cilada do imediatismo nosso de cada dia. Cheguei a acreditar que foi um ano ruim. Cheguei a deixar que pesassem mais os marcos negativos em balança com os positivos. Mas refiz as contas (mesmo sendo ou justamente por ser de humanas!). Do lado de cá da web, não seria totalmente justo definir 2015 como um ano inteiramente ruim. Projetos lindos tiveram lindos desfechos; relações amadureceram; oportunidades que florescerão o ano que vem brotaram neste; encontros pelos quais eu esperava a vida inteira sem saber que esperava aconteceram.

É bem verdade que também foi um ano de rupturas, de desencontros, de desalinhamentos. É bem verdade que também foi um ano de crises, de correrias, de cansaços, de necessidades de fim. Mas também continua sendo verdade que a pesagem que fazemos de coisas boas e ruins é uma das poucas nas quais vale a pena trapacear e colocar um pé ou dois no lado da positividade!

#Meu2015EmUmGif

E essa proposta pouco ética mas bem brasileira talvez seja a mensagem principal desta crônica de fim de ano! Na hora de pensar no ano que passou, tente não ouvir o que os outros têm a dizer sobre os 2015s deles; tente olhar para seus próprios doze meses (o que é difícil de fazer no Facebook, mas…)! E seja horizontal: não pare no que aconteceu em outubro ou em agosto. Alguma coisa boa e que faça o ano ter valido a pena pode ter acontecido em janeiro ou março, longe do alcance de nossa memória curta. E se, mesmo colocando um pé ou dois na balança da positividade, ainda for difícil terminar o ano com um saldo positivo, esperance(-se)! Um novo ano vem aí e (quase) todo mundo acredita nele para fazer/ser diferente.

Feliz 2016!

Show de Truman

E no caso de não nos vermos,
bom dia,
boa tarde,
e boa noite!

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Dawton Valentim’s story.