Saudade senhora

Hoje, a saudade é aquela senhora de cabelos cinza e compridos sentada na cadeira de balanço que range. Hoje, a saudade só se mexe pra dar um aceno, esboçar uma careta de desconforto e fazer a cadeira de balanço velha ranger. Hoje, a saudade não me chateia mais. Mal a vejo. Mal a sinto. Mal a conheço. Mal sei.

É verdade, contudo, que eu ainda lembro de quando a saudade era menina. Espevitada. Cabelos pouco menos compridos do que hoje e uma insolência de infância tipicamente típica. Infantil, a saudade menina beliscava a toda hora. Queria atenção, espaço, fôlego. Queria brincar de gente grande, correr, pular, doer. Menina, a saudade era impaciente, se contrariava fácil, chorava fácil, doía fácil. Gostava de lugares conhecidos, músicas decoradas, perfumes vadios. Amava os filmes trágicos e as comidas doces. Só bebia na adolescência.

A saudade garota tinha cabelos tortos e curtos que diziam “não me toque, eu mordo”. Usava maquiagem preta, roupas severas, punhos cerrados. Garota, a saudade só se encaixava no grupo das raivas, no grupo das fúrias. Mudava de caminho, ouvia outras músicas, dispensava perfumes, torcia a boca pros desafetos, bebia bebidas baratas, fumava cigarros fortes e se achava incansavelmente imortal. Riu disso, quando adulta. Aliás, também lembro da saudade adulta. Séria, confiável, madura.

Adulta, a saudade ria de quando acordava às 13h de uma segunda com a hora perdida e a cabeça doendo. Ria das roupas que usara e, ainda com pouca simpatia a perfumes, usava os suaves, os discretos, os “estou aqui, mas não alardeia”. A saudade adulta batia ponto, usava social, pagava contas, se distraía só aos fins de semana. Poupava dinheiro, dava “bom dia” até a quem não gostava e era admirada como uma mulher sensata.

Hoje, a saudade é aquela senhora de cabelos cinza e compridos sentada na cadeira de balanço que range. Olhando a rua, a saudade é a calma em pessoa. Ou a solidão. Ou a melancolia. Ou o mistério. Senhora, a saudade sorri de leve, quase como quem chora. Suas memórias, já não tão vivas, não doem mais do que a alegram por mostrarem que sua sanidade ainda funciona.

A saudade do amigo, a saudade da amante, a saudade do poder, do abraço, da presença… Senhora, ela é a saudade que você não sente mais, a falta que não faz mais falta, a lembrança que não arde, a ausência que não dói. Sentada na cadeira de balanço que range, a saudade não tem mais borboletas no estômago. Só espera, a saudade, só espera.