Construção

Nada que não tenha sido escrito, pode ser dito.

Eu queria dizer o quanto eu estou me esforçando e tentando ser melhor, mas eu realmente não estou. Quer dizer, olha onde já chegamos. Você se finge de forte e eu assumo o papel de autoritária. Intransigente. Egoísta. Minhas ideias (amparadas no construção do meu eu) justificam as decisões que nos trouxeram até aqui, e você as aceita por que não há nada mais que possa ser feito. Né?

Você não me diz nada e acha que suas ações são claras o bastante. Que você realmente se importa, só porque mandou aquela mensagem na semana passada às 13h45 na sexta-feira perguntando se eu vinha para casa, mesmo. Eu respondi. Eu sempre respondo. Mas você não escuta a porta bater quando eu entro, você não me olha quando eu chego, você não fala quando comigo quando eu sento ao seu lado. Você só me absorve. Mas aí, você se justifica com suas desculpas infindas de que a vida é assim mesmo. “O tempo tudo cura, me curou, não vê?”; você diz.

E é aí a hora que eu não te vejo, não te escuto, não te falo:

Que estou te vendo, te ouvindo. Que mesmo você me absorvendo eu ainda volto. Toda sexta. Que eu queria te dizer que eu não voltaria, mas que eu volto. Porque tem outros, porque eu ainda sou insegura com o futuro, porque não quero mais ser egoísta, porque também estou me esforçando, que a vida é assim, mesmo. Que eu não gosto do jeito como você vive sua vida esperando que eu te salve. Que eu não sou sua salvadora. Que ninguém é. Que você vai sempre me absorver e eu vou sempre não te falar tudo isso.

Porque nada que não foi escrito pode ser dito. E por isso que eu parei de escrever.

Porque eu não queria falar com você nunca mais.