Trivializou

Frases cansadas. Sentido e energia sorvidos pela repetição humana. Dizer leviano e duvidoso de sentenças obstinadas. Bis.
Tive razão. Há tempos tenho sentado no banco descascado da praça pra observar o passeio despreocupado das frases mal-ditas. Das benditas. Das exauridas. Etimologias trabalhosas sendo espalhadas como um dente-de-leão: dançando num piparote. O lago é claro e denso. Como os olhos da citação que senta perto de mim. Alimentou os pombos. Jogou uma pedrinha no lago. Acenou.
Sabe Deus o que faz uma expressão perder sua magia. Sua imponência ou brandura. Uso imoderado? Ocasião inapropriada? Altivez.
Poetas dizem e eu ouço. Uma organização inteira de palavras em amarelo pastel. E os versos caminham na praça de banco descascado. Um poema senta na grama e agradece à luz solar. Eu sorrio timidamente e olho mais uma vez para as páginas do livro. Domingo.
“Você pode contar comigo”. Contração involuntária dos músculos da face. Eu te amo.
Tive razão. O banco descascado da praça já me ouviu reclamar que não posso abandonar algumas frases só porque são clichês. Ich liebe dich – pra parecer mais intenso. Como é que pode?
Tantas metáforas desgastadas passeando na praça. Desfilam sua beleza que ninguém mais vê. Tal como as pequenas flores risonhas que estão perto da saída. Antíteses feridas por ocasião de desgosto. Sinestesias melancólicas lembram do passado.
O capítulo do livro acabou e eu não tenho marcador de página. Memorizo o número por 20 segundos. O lago personificado em gentileza pôde me oferecer um sorriso de olhos estáticos. Agora são castanhos. Como os meus.
Um menino desce depressa do banco. Perto da água. Quase caiu lá dentro. A mãe trovejou. Ele não ouviu mais nada. Olhou desconfiado pra mim. “Vou deixar você sozinho.” Ele não deu a mínima. Ela não vai a lugar algum.
O céu já está ficando daquele jeito que deprime. Em especial, quando é domingo. Caminho e devolvo ao céu aquele sentimento. Refrigera-me a alma.