A culpa é da mãe

Se tem algo que me incomoda na maternidade é quantidade de dedos apontados para a mãe. É como se todos os problemas e desafios na criação dos filhos fossem de alguma forma causados por ela. Desde o desejo de engravidar.

-Não queria ser mãe? Agora aguenta.

Frases assim são recorrentes e recheadas de covardia. Até parece que todos nós não nascemos de uma mãe. Além do mais, o ser humano é tão complexo. Depois da infância nossos problemas existenciais crescem de tal forma, começando na adolescência e ficando piores na vida adulta. Não seria justo atribuir o início deles aos pais — menos ainda à mãe.

Lembro das primeiras 24 horas de vida extra-uterina da minha filha. Ela chorava incessantemente. Para mim havia algum problema e, ao acionar a equipe médica do hospital, a principal desconfiança era fome.

-Você deve estar com pouco leite — diziam.
O leite descia. Muito.
-Ou ela não está fazendo a pega correta — completavam.

As dificuldades com a amamentação são comuns. O bebê não nasce sabendo mamar, apesar do instinto natural de busca por alimento. Com o tempo, mãe e filho vão se adaptando. Naquele momento quatro pessoas vieram nos atender. Uma por vez. Aprendi com cada uma técnicas diferentes para ensiná-la a fazer a pega e não conseguia acreditar que estava vivendo aquilo.

Por fim, minha filha estava apresentando os primeiros sinais de alergia alimentar, que se agravaram nos 15 dias seguintes. Ninguém conseguiu detectar rapidamente.

Aquilo para mim era surreal. Foi a primeira vez que recebi aquele olhar acusador (e de várias pessoas). Depois de 16 meses, eles continuam. Entretanto, eu me recuso a conviver com eles de forma pacífica. Travo uma batalha diária contra a concepção de super mãe.

É óbvio que ninguém é perfeito — e correr atrás disso gera ainda mais frustração. A sociedade tem uma cultura tão enraizada que mesmo antes de nos tornarmos mães já nos enchemos de preconceitos e expectativas:

-Quando eu for mãe vai ser do meu jeito.
-Se fosse meu filho, isso não aconteceria.

A TV, a Internet, as propagandas de produtos infantis mostram uma vida tão harmônica com a chegada dos filhos. Fico impressionada como são retratadas as personagens puérperas de novelas: tranquilas, arrumadas e com bebês dorminhocos. Diante de tantas facilidades, quem não quer ser uma mãe perfeita? E quando isso não se concretiza o mundo cai. Ou seja, a mãe já se sente culpada por si só. Nas pequenas coisas, no seu íntimo, só ela sabe. Não precisa de mais gente reforçando.

Os cuidados com um bebê são exaustivos. Nossas vidas viram de cabeça para baixo. Nem nos meus momentos mais inspirados eu poderia imaginar como seria. Mas certamente se tornam mais estressantes se vierem acompanhados de pitacos e cobranças. E ainda: quanto mais a mãe se aborrece, mais o bebê absorve a tensão e as coisas pioram num looping eterno.

Não julgue. Ajude.

Eu confesso que já me irritei com crianças fazendo birra em lugares públicos. Já discriminei silenciosamente atitude de pais. Mas a primeira coisa que me dei conta nesse universo foi a importância de não julgar. É difícil, ainda me traio muitas vezes, mas procuro me policiar.

Não existe fórmula pronta para criar filho ou para ser mãe. O exercício da empatia é fundamental, tentar se colocar no lugar da outra, compreender suas escolhas (ou não).

Na dúvida, pergunte se a pessoa deseja alguma ajuda e se predisponha. As mães tendem a se colocar em último plano. Faça um mimo. Dê um abraço. Chame para um café. Mostre para ela que se importa com ela. Ouça. Isso pode não resolver os problemas, mas ajuda a lidar com eles.

O que achou desse texto? Curta ou escreva nos comentários para que ele possa ser lido por mais pessoas. :)