Cave of Forgotten Dreams (2010)

Cave of Forgotten Dreams é um documentário de 2010 escrito, dirigido e narrado por Werner Herzog. Acompanhado por um grupo de pesquisadores, ele registrou o interior da Caverna de Chauvet, na França, um sítio arqueológico com pinturas rupestres de 40.000 anos, as mais antigas já descobertas.

Cavalos em fúria e rinocerontes lutando. Gravados há milênios e escondidos pelo tempo.

A caverna em questão possui visitação restrita. Apenas cientistas e convidados ilustres entram nela, ficam o máximo de 1 hora e precisam se retirar. E não é todo dia que pode ir lá. Chato, mas tudo foi feito como medida de segurança para preservação do espaço, especialmente depois que o bafo dos turistas criou mofo nas paredes da Caverna de Lascaux, também na França.

Tudo é bem direto, mas como se trata de um trabalho do Herzog, consegue apresentar alguns momentos de bagunça existencial em meio aos takes de arte pré-histórica com música instrumental chorosa de fundo. O que seria um mero registro se transforma em poesia sobre a degradação da alma humana.

Um rio interno fossilizado.
Dois historiadores tentam recriar hábitos primitivos através da análise dos desenhos.

A parte mais interessante, pelo menos pra mim, é a equipe chegando ao local em que se encontram os desenhos. A caverna é bem grande, e pelos estudos das formações rochosas, a incidência solar no passado era alta em muitas partes do que hoje está coberto. No entanto, os homens primitivos preferiram desenhar no escuro absoluto, em locais quase inacessíveis. Como o acesso a essas partes de penumbra só era possível com o uso de tochas, a sombra da chama nas paredes (e nos desenhos) criava um aspecto de movimento. Aparentemente, a ambientação era um aspecto fundamental pro trabalho e tinha cunho ritualístico, pois exigia um espaço isolado, escuro e com suportes para os carvões-incenso, crânios e outros elementos decorativos que ali eram depositados.

Isso me faz pensar que há 40 mil anos atrás o espaço expositivo já era explorado, talvez numa tentativa espontânea de estabelecer valor de culto e uma noção de aura material primitiva, muito antes do próprio conceito de objeto artístico existir.

A alcova secreta.

O documentário também me faz refletir sobre a hipótese de que aqueles desenhos seriam a materialização do que chamamos de alma. Uma alma que se diluiu no tempo e hoje vive por aí, se arrastando entre o trabalho e o Xvideos. O título do filme surge dessa reflexão, a caverna de sonhos esquecidos. Um dos pesquisadores fala na lata que o termo Homo sapiens está errado, porque somos ignorantes e não sabemos de nada até hoje. Homo spiritualis seria o correto, e que podemos ver isso nas pinturas rupestres e nos adornos da caverna. Desde o início, criamos para tentar alcançar um plano espiritual, e essa expressão evoluiu para nossa comunicação. Devemos tudo aos primitivos, sem sua arte não teríamos nada. Corta pra um altar feito com crânio sobre pedra.

O altar.

Em outros momentos, algumas figuras bizarras aparecem no filme pra fazer todo mundo rir. Temos um perfumista cujo trabalho é sentir os cheiros da caverna (uma mistura de rochas, poeira e fósseis milenares) registrá-los e tentar recriar os ODORES DO PALEOLÍTICO. Ele passa os dias fungando pedra e chora de emoção quando respira uma nota olfativa diferente do que já está acostumado.

Cheirando estalagmite e crânio de bisão.

Temos um artista circense que largou tudo para ser antropólogo. O cara entrou na caverna por cinco dias consecutivos para pesquisar e depois não aguentou o PESO da experiência. Teve pesadelos, sentiu a presença de uma força poderosa e se recusou a entrar lá de novo.

Esse rapaz precisou tirar um tempo pra relaxar e abraçar sua espiritualidade depois de entrar em contato com a arte das paredes.

E temos também um arqueólogo especializado em artefatos antigos (como flautas de osso, bonecas de fertilidade e armas) que recria uma lança primitiva e tenta imitar os movimentos de caçada dos Neandertais que residiam na caverna. É um momento de vergonha alheia absoluta, pois o sujeito fracassa totalmente e mal consegue jogar a lança, demonstrando que o homem moderno é um incompetente que só passa vergonha, enquanto nossos antepassados derrubavam leões no braço.

“Sai daí, você não é capaz de caçar.”

É no epílogo que rola o clássico “isso não tem nada a ver com o roteiro, mas vou gravar mesmo assim”. A equipe de filmagem vai até uma usina nuclear que foi construída nas proximidades do sítio arqueológico. Nesse local, uma biosfera tropical foi criada com a água quente que vem da usina para evitar desperdícios e reflorestar a área. Na estufa gigante banhada a água radioativa, crocodilos mutantes albinos surgiram. A partir daí, Herzog divaga um pouco e fala que o ser humano hoje nada mais é que esse crocodilo mutante albino em comparação ao Neandertal. Uma aberração que olha para o reflexo de si mesma em um passado longínquo e não consegue entender nada de tão limitada que é.

O crocodilo albino.

Tá bom então.