O capitalismo sublimado

Figurão da arte contemporânea, Damien Hirst é um britânico que despontou no universo artístico após ser descoberto pelo curador Carlos Saatchi nos anos 80. Ainda jovem, foi um dos expoentes do grupo Young British Artists, que buscava uma vanguarda artística desprendida do rigor com as questões sociais, apostando em técnicas de “choque” no expectador e voltando-se para o mercado de arte.

De todo o grupo, Hirst conseguiu mais destaque graças aos tablóides e hoje é um milionário que faz arte porque quer e pode. Seu trabalho é controverso no meio artístico e oscila entre o superficial, o vazio conceitual e o visualmente genial. Gosta de misturar técnicas e símbolos arbitrariamente em seu trabalho, criando composições extravagantes para impressionar. De forma bem questionável, criou imagens artísticas que marcaram a cultura pop contemporânea.

Frequentemente acusado de plágio, diz na cara dura que não se importa com a opinião dos outros e vende souvenirs de 10 mil libras em sua lojinha virtual. Suas exposições recebem bombardeios de críticas negativas, e mesmo assim estão sempre lotadas. Poucos gostam, a maioria odeia, todos querem ver. Arte capitalista sem vergonha que não esconde o que é, feita para o consumo de uma elite que pode desprender muita grana em um tubarão embebido no formol pra colocar na sala.

Damien Hirst, “The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living”, 1991. Tubarão, formol, vidro, ferro.

Em 2007, Hirst pegou um crânio humano e decidiu que seria uma boa ideia cravejá-lo com 13 milhões de libras em diamantes. Esse seria seu trabalho mais audacioso até então. Após o processo de curadoria, a obra alcançou o valor de 50 milhões de libras, tornando-se a obra de arte mais cara feita por um artista vivo.

Damien Hirst, “For the love of God”, 2007. Crânio humano, platina, 8.601 diamantes.

A obra foi exposta para o público em um cubículo preto, onde um grupo pequeno de pessoas entrava e a apreciava. Dois minutos depois, sem mais nem menos, um segurança aparecia e mandava todo mundo embora.

Muitos espectadores relataram um extremo desconforto durante o processo de interação com a obra: tratava-se de um objeto inútil, mas belo e intrigante. O fato de estarem na presença de uma coisa brilhante que valia uma fortuna e não poderem fazer nada — sequer tocar — causava um VAZIO EXISTENCIAL. E antes que percebessem, eram retirados da sala, como se não fossem bem vindos ali, como se fossem a ralé. Naquele contexto, eram mesmo.

Não sou fã do trabalho de Hirst. Concordo com os criticismos acerca da frivolidade poética e cara de pau de um sujeito que copia todo mundo, mas ameaça processar um estudante que usou uma estampa sua na internet sem autorização. Hirst é desagradável, é babaca e é, como dizem, “o que há de errado na arte contemporânea”. Porém, o valor de seu trabalho enquanto fenômeno cultural é inegável. O frenesi por espetáculo e consumo, elementos fundamentais em todas as suas obras, são sintomas de uma sociedade contemporânea desesperada por brilhos e paetês, não importa de onde eles venham, não importa se são inalcançáveis.

A caveira de brilhantes, assim como o artista que a executou, é a materialização do aspecto teatral do capital. É fútil, debochado, decorado de forma excessiva para impressionar e provocar inveja mesmo que não signifique nada. Fica ali, estendido bem na sua frente, num pedestal. Pode olhar, mas não pode tocar. Belo em aparência, podre em essência.


Em 2013, abraçando o supérfluo exuberante do capitalismo até a última gota e plagiando como sempre, Damien Hirst tirou belas fotos da Rihanna pelada, linda, enrolada com uma cobra e fazendo referência à Medusa.

Rihanna por Damien Hirst para a GQ Magazine, Dezembro de 2013.

Rihanna, epítome do “pop farofa” e representação de várias coisas que têm sido exploradas pelo capital. Sexualização, glamourização do sucesso, o estilo do “gueto” sendo vendido como hype. Acredito que nesse ensaio fotográfico tudo isso é fetichizado de forma deliberada. Rihanna é um monstro feito pra te seduzir, em seu olhar assustador vemos a promessa de diamantes no lugar das pedras. Admire e morra. Tente desviar o olhar e fracasse.

Aglomerado ao seu corpo está o valor de um sublime pós-moderno, que apresenta o capital como objeto de desejo acima de todas as coisas. Uma cultura que faz ode ao nada e vive de status, sempre materializando belas imagens para a apreciação de todos nós, reles mortais.

No fim, é disso que o povo gosta.