Ele não, luta sim

Do lado de cá, a luta começou há muito tempo, e nunca terminou.

Asilo de Mendigos em Pelotas, Rio Grande do Sul. Foto minha.

Parece que o ditado estava certo, afinal
a esperança é mesmo a última a morrer.
Últimos dias
e a pergunta que mantém a luz do meu quarto acesa à noite
é sempre a mesma
como convencer quem não está acordado?

O que dizer que já não foi dito?
Falar com eles é como conversar com quem não está presente
na mesma realidade que eu.
Pensando bem
nossas realidades são mesmo diferentes.

Quem vota por Deus, pela sua família
pela tortura e pelas armas
não está na mesma realidade que eu.
Estamos a mundos de distância.

Quem anula voto não está do meu lado, tampouco.
Não basta hoje calar. 
Hoje há que falar em favor dos seus direitos, dos meus direitos,
dos direitos de todos de ser 
e serem ouvidos.

Não divido nós e eles com uma régua. 
Não acredito que todos sejam ruins do lado de lá
e do lado de cá todos sejam melhores.
Mas do meu lado há diversidade. Há arte.

Há respeito e compaixão e empatia e liberdade 
diálogo e escolha e abertura 
para pensar além de si e do dinheiro.
Há cores e vozes que foram até agora silenciados
conscientemente apagados 
dos nossos livros de história.

Do lado de cá não há imposição
há amor, não há indiferença, há aceitação
de diferentes realidades.
Aceitamos a sua realidade, também, a entendemos
mas não a compartilhamos.

Do lado de cá, vai continuar havendo luta por direitos
mesmo após as eleições, enquanto do lado de lá
a revolta é seletiva
se não tocamos nos seus bolsos e privilégios,
na sua aparência polida
eles não se importam.

Do lado de cá, a luta começou há muito tempo
e nunca terminou.
A luta é por viver
em vez de sobreviver
por ser e não se esconder.
Por ser e não ser 
considerado menos do que o normal.

Essa luta não é de hoje, nem de um, dois ou dez 
anos atrás.
Para nós, ela é eterna e não vai a lugar algum 
após o domingo
ela permanece
enquanto nós permanecemos.