A representação feminina na ficção científica

Dayanne Fernandes
Mar 11, 2018 · 5 min read

Aproveitando os temas levantados no Dia Internacional da Mulher, o papo de hoje vem fazer algumas reflexões acerca da representação feminina na literatura, mais especificamente na ficção científica.

Qual o primeiro título que vem à sua cabeça quando falamos de scifi? E qual autor deu vida a essa obra?

Começo o texto com esses questionamentos de forma proposital, para que possamos refletir. Falar sobre a representação feminina na literatura como um todo já é um tema que daria um bom debate, mas decidi trazer a discussão para um dos gêneros mais dominados pelo universo masculino ainda hoje: a ficção científica.

Se pegarmos os livros e autores mais populares do gênero até hoje, fica fácil observar a discrepância existente entre o masculino e o feminino. Olha só:

  • 2001 — Uma odisseia no espaço — Arthur C. Clarke
  • O jogo do exterminador — Orson Scott Card
  • Fahrenheit 451 — Ray Bradbury
  • Admirável mundo novo — Aldous Huxley
  • Neuromancer — William Gibson
  • Duna — Frank Herbert
  • 1984 e A revolução dos bichos — George Orwell
  • Fundação — Isaac Asimov
  • Laranja Mecânica — Anthony Burgess
  • 20.000 léguas submarinas — Julio Verne
  • Jurassic Park — Michael Crichton

Agora, veja que, para todos esses e outros nomes de sucesso, temos um número pequeno de mulheres que conseguiram alcançar algum espaço, entre as mais conhecidas:

  • Connie Willis — O livro do juízo final (Só publicada no Brasil em 2017!)
  • Mary Shelley — Frankenstein (primeira obra de ficção científica da história!)
  • Ursula K. Le Guin — A mão esquerda da escuridão
  • Margaret Atwood — O conto da Aia (lançado em 1985, mas com destaque apenas em 2017 após se tornar uma adaptação cinematográfica)

É uma diferença gritante! E quando passamos para o cenário nacional, a coisa ainda fica muito pior! Apenas do ano de 2015 para cá é que o scifi vem ganhando mais adeptas, tanto na leitura quanto na escrita. Alguns dos nomes que se destacam na literatura nacional hoje são:

  • Aline Valek — Águas vivas não sabem de si
  • Bárbara Morais — Trilogia Anômalos

O mais surpreendente de tudo isso, como podemos observar, é que a ficção científica surgiu justamente pelas mãos de uma mulher, Mary Shelley. E hoje ainda temos tão pouca voz quando se trata não apenas de escritoras, mas inclusive de personagens femininas no gênero. Geralmente as mulheres são retratadas nas obras de scifi com um caráter carregado de estereótipos preconceituosos e machistas, isso quando não acabam recebendo comportamentos totalmente masculinizados para simbolizar sua força e inteligência. Muitas das personagens sequer tem falas durante um livro, e se tem, são coisas como cumprimentos, despedidas e pedidos de socorro.
Se você pegar, por exemplo, o livro A Fundação, de Isaac Asimov, verá que em todo o enredo só existe uma personagem mulher — e ainda por cima é uma personagem fantasma! Sem nome e sem fala, ela é apenas citada por outro. Dá pra acreditar?!

É esse tipo de paradigmas que precisamos continuar a quebrar!

Como leitora e autora de scifi, no momento em que decidi colocar minha obra “A Fortaleza: Mundo Sombrio” no papel, eu soube que o grande destaque estaria nas mulheres da história. Eram elas quem salvariam o planeta, quem lutariam nas linhas de frente, quem comandariam exércitos, e ainda assim se apaixonariam, se sacrificariam, sofreriam, cometeriam erros e acertos, como toda e qualquer pessoa. Eu queria personagens reais. Contudo, mais do que isso, eu queria mostrar a força feminina em pé de igualdade com a masculina. Mulheres fortes que mantêm sua essência.

E assim surgiram as minhas personagens:

CAMILLE — A líder dos Fantasmas das Sombras, um grupo de rebeldes da Fortaleza n° 07 que luta para sobreviver em meio a tirania de um governo cruel e autoritário. Camille é o símbolo de comando feminino. A espada. A arma na frente de batalha. Ela é a prova de que uma mulher pode guiar muito bem uma liderança forte, ser respeitada e amada por seus seguidores.

SARAH — A melhor lutadora da Fortaleza n° 07 e melhor amiga de Camille. Sarah é o meu verdadeiro trunfo na quebra de estereótipos. Ela é vaidosa, é impulsiva, faz piadas nas horas mais sérias… À primeira vista muitos a julgariam como uma mulher fútil e exibida. Mas ao longo da história conhecemos a verdadeira Sarah. A lutadora, leal, protetora, corajosa, apaixonada, sincera, inteligente.

ELEONOR — A franco-atiradora da Fortaleza n°07. Eleonor foi uma personagem que nasceu inspirada em uma mulher real, a ucraniana Lyudmila Pavlichenko. Pavlichenko é considerada a franco-atiradora mais bem sucedida na história. Como voluntária, quando os alemães começaram a invadir a União Soviética na Segunda Guerra Mundial, Lyudmila recusou a opção de servir como enfermeira e quis fazer parte da linha de frente de combate. Ela foi uma mulher admirável e corajosa, sem dúvida. Além de ter conseguido sucesso defendendo muito bem seus companheiros no tempo em que participou da guerra.

Eleonor Michelle, em A Fortaleza, tornou-se uma atiradora também para proteger seus amigos. Antes uma cientista, após ver seu grande amor morrer nas mãos do governante, ela deixou os laboratórios para trás e se transformou na franco-atiradora como um símbolo de coragem e altruísmo.

ALANA — Apesar de aparecer somente no segundo volume da duologia, Alana traz consigo o conhecimento como força feminina. Ela sabe usar o arco com uma precisão milimétrica, além de dominar as artes botânicas, que usa a seu favor em todas as batalhas. Alana é um símbolo de inteligência, com apenas uma mistura de ervas pode salvar ou tirar vidas. Houve um tempo em que mulheres com esse tipo de conhecimento foram acusadas de bruxaria e queimadas vivas. Alana é um tributo a cada uma delas.

Para finalizar o texto — pois a discussão sobre o assunto precisa e deve continuar — gostaria de convidar mais mulheres a fazerem parte do universo literário. Sejam como autoras, leitoras, como blogueiras, críticas, mesmo que não seja esse o seu gênero preferido… As mulheres são hoje as maiores consumidoras de literatura do mundo! Temos força e poder para gritar para o universo e fazer com que recebamos o devido respeito, que sejamos tratadas como pessoas capazes, não apenas como representações indefesas que precisam ser salvas!

A Fortaleza: Mundo Sombrio está disponível na Amazon no link http://amzn.to/2gPxdgy e também estará à venda na versão impressa durante a Bienal de São Paulo.

Página oficial da autora: https://www.facebook.com/day.escritora

Instagram: https://www.instagram.com/day.escritora

Dayanne Fernandes

Written by

Escritora. Psicóloga. Leitora apaixonada por romance e ficção científica.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade