Contagem Repressiva

Poucas coisas me são tão angustiantes hoje em dia quanto o réveillon. Não, não me refiro ao balanço do ano que finda, nem às eternas promessas e desejos do ano vindouro. Tampouco às saudades dos que já se foram, ou dos que felizmente ainda estão, mas que infelizmente não estão ao meu lado naquele momento. Meu sofrimento é mais tacanho e específico: a hora da virada e sua incerta contagem regressiva.

Não sei se antigamente era de fato melhor, ou se simplesmente são as lembranças embaçadas da minha infância que me fazem crer que outrora todo mundo fazia a famosa contagem regressiva ao mesmo tempo, em uníssono, numa ansiedade gostosa e saudável, que culminava em beijos e abraços efusivos e generalizados. No apartamento dos meus avós, por exemplo, a contagem, iniciada por uma só pessoa, era acompanhada pelos demais, sempre seguida pelo Hino Nacional em último volume – por mais esdrúxulo que hoje pareça, durante muitos anos eu achei que o hino era tocado em todo lugar na hora da virada. Lembro do disquinho de vinil cuja capa era a bandeira do Brasil, que tinha também, no lado B, o Hino da Independência (aquele da paródia: “Japonês tem quatro filhos…” – caso raro em que a paródia é mais conhecida que q letra original, creio eu). Havia também os espumantes e as sidras (sim, é com “s”), com uvas ou passas dentro, que tinham que ser consumidos nos primeiros segundos do ano novo, e então alguém mudava a vitrola (ou sintonizava alguma rádio, não estou certo) para marchinhas, e a festa da virada virava um próprio carnaval, até lá pelas três da madrugada (naquele tempo criança ficava acordada até tarde em ocasiões especiais), quando o álbum do Trini López, ou o do Ivanildo, “O Sax de Ouro”, era a deixa para que se acalmassem os ânimos, com alguns cantarolando em uma roda e outros beliscando algum resto na mesa da ceia. Se, lá pelo primeiro canto do galo, porventura restassem alguns bebuns mais renitentes, minha avó delicadamente batia palmas e começava a cantar: “Quem parte leva a saudade de alguém que fica chorando de dor…”. Era a senha irrefutável do fim da festa.

Feita essa digressão nostálgica, volto ao ponto da minha aflição: não sei por que hoje em dia as pessoas se perdem na hora da contagem. Sempre tem um que estoura a champanhe antes da hora, e aí os que estão mais próximos seguem. Basta um folião precoce, para que a onda de gritos antecipados vá se alastrando até chegar onde estou. Ou alguém que não sabe que o próprio relógio está adiantado e comunica a falsa virada antes da hora, confundindo os que têm seus relógios pontualmente corretos (esse motivo deveria praticamente inexistir nos dias atuais, já que os celulares há muito desbancaram os relógios como informadores de hora de primeira hora, e estão todos sincronizados com as torres de transmissão das operadoras). Em escala maior, sempre tem um fogo de artifício que resolve pipocar antes da hora e, mesmo a quilômetros de distância, consegue arruinar os preparativos de quem só quer contar junto com os seus.

Certa vez passei a entrada nas areias de Copacabana. Muito melhor do que os mais de vinte minutos de fogos – que são bonitos, é verdade, mas cuja tecnologia carece de inovação há pelo menos cem anos e por isso não surpreende mais – é o simples fato de que milhões de pessoas acompanham os telões (pelo menos no ano em que fui, os havia) e contam junto, até o clímax do início dos fogos. Essa foi uma das poucas vezes, já adulto, que me lembro de não ter ficado agoniado em saber se haveria contagem, nem de tentar, sem sucesso, coordenar uma contagem regressiva única com as rodas mais próximas.

Talvez tenha a ver com a ansiedade generalizada que vivemos hoje em dia. Ou ainda com a individualidade dos nossos tempos, em que executar algo coletivamente de forma espontânea é quase impossível. Ou com o horário de verão, que deixa o povo meio desorientado (tenho um parente próximo que jamais aceitou comemorar nessa hora arbitrária e burocrática, e deixa para dar suas felicitações uma hora depois dos outros). Ou simplesmente a contagem regressiva já não importa mesmo, e só alguns mais nostálgicos como eu, ou sonhadores como eu, ou mesmo pragmáticos como eu, é que lamentam que tenha caído em desuso. Para mim, um Ano-Novo sem contagem é um perfeito anti-clímax, e a utopia da virada, esse gostoso autoengano efêmero e ilusório, já se desmancha ali, antes mesmo de começar, na realidade objetiva da vida.

Assim, meu primeiro desejo para o novo ano, ou melhor, meu derradeiro desejo para este, é que façamos, pelo menos os queridos que estarão ao meu lado, uma contagem regressiva: animada, auspiciosa, e sincronizada!

Comecemos então a treinar desde já. É fácil: “10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… Feliz Ano Novo!”

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