Dois por um
Quantos ingressos um cidadão qualquer precisa comprar para assistir aos Rolling Stones? No meu caso, foram quatro para dois shows. Vamos aos fatos.
Mick, Keith, Charlie, Ron e trupe estiveram no Brasil pela primeira vez em 1995, na turnê Voodoo Lounge. Com 13 anos na época, eu era um neófito em seus sons. Se teve alguém que me acordou para esse mundo de satisfação foi minha tia, fã de carteirinha dos caras desde mil novecentos e bolinha. Foi ela quem comprou ingressos, deu de presente e ficou responsável por levar filho e sobrinhos.
O show no Pacaembu encerrava um festival patrocinado por marca de cigarros, coisa típica dos anos 90, com abertura de Barão Vermelho, Rita Lee e Spin Doctors — lembra deles? Só que naquela noite choveu canivetes. O Barão tocou ensopado, Rita não deu as caras e os doutores lá bem que se esforçaram, mas não tinham cacife pra segurar a onda. Quando os Stones entraram no palco, já estávamos há umas boas 4 horas de pé tomando água na cabeça e minha tia decretou que era hora de partir. Ficamos sem vê-los.
Dois dias depois, a sensação de ter perdido algo imperdível bateu forte.
Tínhamos ido na sexta, eles tocaram de novo no sábado, agora era domingo e seria a última apresentação em São Paulo. Minha tia se agilizou e conseguiu novos ingressos, creio que com cambistas. Lá fomos nós mais uma vez. Lembro desse show com carinho, dos melhores que vi na vida.
Os Rolling Stones voltaram ao Brasil em 1998. Não fui. Voltaram para aquele evento histórico na praia de Copacabana e, por conta de um show da minha própria banda em São Paulo, também não fui. Ainda hoje me arrependo pacas por isso.
Conforme os anos passavam, a banda aumentava seu lote no meu coração enquanto a cabeça ia aceitando que nunca mais os veria.
Até anunciarem o retorno nesse fevereiro de 2016. Em 1995, já eram veteranos. Na casa dos 50 anos e com mais de 30 de carreira. Agora seria a última ocasião de testemunhá-los ao vivo e em forma. Talvez ainda voltem, vai saber, não duvidemos da longevidade de Keith Richards. Duvido sim é da minha disposição atual para comparecer a shows em estádio.
Sem pensar duas vezes nas consequências financeiras e orçamentárias do ato, na madrugada do último 15 de dezembro fiquei na internet até conseguir comprar dois ingressos. Um pra mim, um pra minha mulher. Como se sabe, seriam duas apresentações em São Paulo, uma na quarta-feira (24/2) e outra no sábado (27/2). A agenda da minha companheira não tinha disponibilidade para quarta, então vamos de sábado. Vi que o e-mail de confirmação chegou e me dei por satisfeito, nem abri. Mas, assim como em 1995, quem disse que ter o ingresso é garantia de ver o show?
Um parágrafo para falar sobre essa empresa, Time For Fun, devil pelo qual não tenho a menor simpathy. Se estivessem mesmo compromissados com o fun, não produziriam eventos no fucking Morumbi. Através de seu braço que comercializa ingressos, Tickets For Fun, se permitem cobrar 20% do valor pago no bilhete para entregá-lo por e-mail. A quantidade de vezes em que cobram esse adicional é equivalente ao número de ingressos comprados, não à quantidade de entregas efetuadas. E veja bem: você tem que levá-los impressos. Chamam isso de taxa de conveniência. Nem um guru da cientologia seria capaz de batizar assim amigavelmente um procedimento tão obtuso e obsoleto.
Multiplique o público da turnê stoniana no Brasil por folhas sulfites e temos uma bela quantidade de Trash For Fun.
A semana do show chegou. Aquela mesma tia fã dos caras também: hoje mora em Recife e veio para vê-los na quarta-feira. Porém, na manhã do mesmo dia, outro tio meu faleceu na capital pernambucana. Ela pegou o avião de volta e seu ingresso ficou para meu irmão. Um dia fatídico, triste demais. You can’t always get what you want.
Já no sábado, minha mulher acordou doente. Combinamos de passar o dia em casa, quietos, para focar na missão noturna. Os Stones valiam o sacrifício. Enquanto ela ficava de molho no sofá, saí pelo bairro com o objetivo de comprar ingredientes para o almoço. Além de passar na lan house mais próxima e convenientemente imprimir os ingressos.
Voltei com 500 gramas de patinho, tomate, cebola, mais duas folhas de sulfite. E foi ao ver essas duas folhas que me dei conta: os ingressos eram para quarta.

Em coisa de 5 minutos, experimentei uma enxurrada de sensações angustiantes. Raiva de mim mesmo, vontade de gritar, quebrar coisas, jogar uma bomba pela janela de casa. Tinha certeza que tinha comprado para sábado, mas como podia ter tanta certeza assim? Desesperado, mandei uma mensagem no site da empresa pedindo ajuda. Tentei ligar e descobri que só atendem em dias úteis e horário comercial.
Idiota, você rodou.
Com olhos de sinusite, minha mulher apenas me observava, atônita. Bom pra se enxergar: fosse ela a autora do feito, era bem capaz que eu armasse uma discussão daquelas.
Pelo What’s App, comunicamos o fracasso a nossos amigos. Alguns gentilmente se ofereceram para encontrar cambistas e esquemas. Desencana, não teremos como arcar. Aliás, comprar os ingressos e pagar aquele roubo de taxa já tinha sido loucura. Hora de cair na real. Enquanto vigiava a panela de pressão, pensava na ironia da situação. Nunca fui da cozinha, sempre frequentei shows. Agora estava ali cozinhando e perderia o show de uma das minhas bandas prediletas.
Devia era amassar aqueles sulfites e comer de almoço.
Sempre que cometemos erros, passamos de um choque inicial para um período de construção de justificativas. É necessário racionalizar a situação para aceitá-la e seguir em frente sem ficar se chicoteando pelo leite derramado. Da dor de garganta, minha mulher passou para os 38 graus de febre. Seria uma irresponsabilidade tremenda ir com ela nesse estado para o meio da multidão em um dia que ameaçava chover. Melhor mesmo ficar em casa, paciência, vamos ver algo na TV. Do dinheiro a gente corre atrás trabalhando.
(merda. perdi os Stones. nunca mais vou ver. também perdi a grana. merda, bosta, merda)
Era por volta de 16h00 quando chegou a mensagem. Um amigo não poderia mais ir ao show devido a uma crise de gastrite. Alguém quer o ingresso? Sem fazer contas, sem abrir o extrato bancário, respondi que sim. Pedi perdão para minha mulher que, tomando própolis debaixo de um edredom em plena tarde abafada, ainda assim conseguiu ficar feliz por mim. E parti.
O resto foi cerveja, bons amigos, um tiquinho de chuva e a satisfação de reencontrar esses senhores capazes de make a grown man cry. Mick Jagger, 72 anos, com uma voz ainda potente e muita malemolência. Keith Richards, também 72, com sua presença imortal e estilo chuckberryano irresistível. O caçula Ron Wood, 68, que aparenta ser o mais gente fina da banca. E precisamos falar sobre Charlie Watts. São 74 anos de vida sem perder o compasso, um câncer de garganta vencido, a mesma elegância de sempre.



Uma consideração final: não foi apenas comigo que aconteceu de comprar para sábado e receber o de quarta. Meu cunhado avistou várias pessoas com ingresso errado na hora de passar pela catraca do Morumbi. Testemunhei um senhor na mesma condição no momento em que entrei. Perguntei pra funcionária da Time For Fun que estava ali se isso acontecera com muita gente e ela confirmou que sim.
Até agora a empresa não respondeu à mensagem que enviei pelo site. Mas deles não espero tamanha conveniência.

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Namastê.