E la nave va

Se você está lendo essas palavras, é porque sobreviveu a 2015. Meus parabéns.

Com tanto baixo astral generalizado envenenando as têmporas da humanidade, 2015 foi um ano que custou a passar. No futuro, todos nos lembraremos de como atravessamos esse período de trevas sem pular de vez da ponte.

Quem era, onde estava e o que fazia você naquele ano que não quis acabar?

Mas ano novo é chroma key. Uma tela monocolor esperando ser preenchida com as projeções que escolhermos. E nada melhor do que inaugurar um calendário enchendo os bolsos de referências para aplicar no seu videoclipe. Visitando lugares onde nunca antes pisou, experimentando sabores exóticos, oferecendo o coração a novas amizades; celebrando a vida em um cenário exuberante como se fosse um sonho do qual não se quer mais acordar.

Foi lá por setembro daquele já longínquo ano sombrio que eu e minha mulher decidimos fazer da passagem para 2016 um momento significativo. Mesmo estando os dois na vida autônoma, correndo atrás do dinheiro e, no meu caso, com umas tantas dúvidas sobre o futuro profissional, demos all-in na possibilidade de viver uma experiência inesquecível. Do que ainda restava na poupança, destinamos a maior parte para uma viagem de barco durante 8 dias pelo oeste do Pará. E, só de tomar essa iniciativa, cada novo incômodo que 2015 apresentou no segundo semestre passou a ser relativizado.

Acontecesse o que acontecesse, a Amazônia estava logo ali no horizonte.

Passadas a engorda natalina e a esbórnia alcoólica que caracterizam o mês de dezembro, pegamos um Uber até Guarulhos e entramos num avião rumo a Santarém. Com escala em Manaus, foram cerca de 5 horas voando e depois mais 30 minutos de táxi até Alter do Chão. Lá pernoitamos para no dia seguinte bem cedo embarcar no Rio Tapajós.

A expedição contava com 4 barcos, uns 80 e tantos passageiros e mais os membros da tripulação. No sexto dia, 2 barcos retornariam com ⅔ do contingente, o restante seguindo viagem Rio Arapiuns adentro por mais 2 dias.

A maior parte das pessoas se hospedou em redes, tecnologia apropriada dado o espaço limitado e o clima quente/úmido que caracteriza aquelas bandas. Mas havia também opções de cabine e essa foi a nossa escolha. Com cama de casal e ar condicionado que, quando acionado, se tornava um sonho dentro do paraíso. Vale dizer que entre 00h e 4h o gerador de eletricidade ficava desligado, o que nos levava a escancarar a porta da cabine para não derreter.

Cada embarcação tinha sua própria cozinheira e ajudante de cozinha. Se dependesse da Francis e da Leidy, mãe e filha encarregadas da alimentação na nossa, eu teria adquirido a silhueta de um peixe-boi. Foram 8 dias de comida farta, saborosa, feita com carinho e riqueza de técnicas gastronômicas. Pelas mãos e sorrisos delas, poderia passar o resto da vida me alimentando de peixe, farinha e tucupi.

Pensa numa trouxinha de pirarucu. De pirar o cu.

Ainda no circuito digestivo, falemos sobre banheiros. Apenas um dos barcos era dotado de fossa. E não era o meu. Sendo assim, satisfazer as necessidades vitais seguia algumas premissas. Navegando, tudo liberado. Uma vez ancorados, número 2 proibido. Mas sempre era possível solicitar ao comandante uma voltinha para os interessados da vez resolverem seus problemas. Pode parecer bizarro para quem não esteve lá, mas em pouco tempo já éramos todos íntimos e cúmplices no tema. Naquele contexto, ter nojinho do que é ser humano não faz o menor sentido.

Solta os presos, delegado!

Estamos no oeste do Pará, mais precisamente no Rio Tapajós, e a sensação é de navegar em mar aberto. São quilômetros de distância entre uma margem e outra, tornando o horizonte uma estreita linha escura. Impossível não se sentir microscópico sabendo que a terra à vista é apenas um recorte da gigantesca floresta amazônica.

Estamos numa época de seca e baixa do rio. Bancos de areia dão as caras formando um sem-número de praias debruçadas sobre aquela espécie de oceano. Atracar em alguma é o principal evento da rotina.

Você desce a prancha e caminha pela areia branca e fina. Ficha que só cai ao dar o primeiro mergulho. A água é doce e deixa eu dizer uma coisa sobre esse pedaço do planeta: não há mosquitos.

Nos versos de Gonzaguinha que saem dos falantes conduzidos pelo DJ Rodrigo Bento, tripulante da jornada, “um banho d’água fresca no lindo lago do amor”. Ainda que enrugue a ponta do nariz, não quero nunca mais sair.

Estamos no dia 31 de dezembro e o local atende pelo nome de Ponta do Icuxi. Já dobramos a esquina do Tapajós para subir o Arapiuns, rio menor que o primeiro mas ainda assim com dimensões amazônicas. É um trajeto de paradas em não-lugares. Basta uma nuvem desabar e o rio subir para o cenário adquirir novos e diferentes contornos, ou mesmo deixar de existir. Uma porção de pontos que Waze e Google Maps não apontam. “Ninguém entra duas vezes no mesmo rio”, coisa e tal.

Os preparativos para a festa da virada são encaminhados pelos responsáveis enquanto desfrutamos uma tarde turquesa. Vá se lavar, 2015. Vou lhe usar pela última vez.

Já é noite e a contagem regressiva das horas começou. Estamos em um círculo ao redor de velas trazendo à tona nossos sentimentos mais elevados. Estou tão arrepiado quanto agradecido. Obrigado por você existir e estar aqui.

Luzes e música chamam pra dançar. Todxs juntxs e misturadxs ao som do carimbó, paraenses e gringos de São Paulo e do Rio. Aquela diversidade de pessoas e opções que desejamos encontrar.

Sigo as coreografias de adolescentes nativos com cabelo descolorido e pele de uma cor que nunca apresentarei. Como conseguem se movimentar de tal forma na areia fofa é desses mistérios que fogem à compreensão das minhas panturrilhas.

Silvan Galvão e sua banda nos conduzem pela dança do macaco. O gin e a tônica são meus pastores, nada me faltará.

10, 9, 8 e FELIZ ANO NOVO!

Estamos sem comentários no momento. Vida, leva eu.

estamos em 2016 e estamos de ressaca. Um dia de bem-vinda pasmaceira para a viagem prosseguir. E la nave va pelo Arapiuns.

Mesmo que fizesse vista grossa, o cheiro da fumaça me invadiria pelas narinas. A Amazônia queima. Uma coisa é ler números alarmantes de uma poltrona na capital paulista, outra é testemunhar a olhos nus. Seja por descuido ou por maldade, a imagem dói. E a dor se repete em vários momentos, porque está logo ali, está lá longe, olha lá de novo.

Assumo minha ignorância para expôr os nós e tramas que sustentam esse cenário, mas tenho um palpite. Se você quer ajudar de alguma maneira, troque o abraço na árvore pelo abraço nas pessoas que vivem sob sua copa. Tem gente morando ali há gerações que sabe bem como aproveitar a floresta mantendo ela de pé.

Exigir certificação florestal dos móveis que comprar também ajuda.

Na manhã seguinte, dia 2, fazemos uma trilha de 4 horas pela comunidade de Atodi. Somos guiados pelo Sr. Francisco, o Gito, 68 anos e físico invejável. Com um Harry Potter estampado na camiseta, ele nos apresenta diversas magias selvagens ancestrais. A seiva que cura feridas, a casca que alivia dores estomacais, a folha que constrói o teto, a castanha do Pará. Vai saber quantas riquezas aquela flora ainda guarda alheias ao conhecimento humano.

Por fim, um igarapé escondido na mata com água gelada e argila nas beiras. Pique day spa orgânico.

Analfabeto e sem nunca sequer ter visitado a capital Belém, Gito é um sábio. Dessas pessoas com quem é impossível não se conectar, poesia em forma de gente. De tarde ele nos mostraria as mil maneiras pelas quais sua comunidade aproveita a mandioca, da farinha ao tucupi. Na noite seguinte, ele nos contaria histórias de curupira, saci, mordida de cobra e ferroada de arraia. Tudo enquanto apreciávamos um tambaqui na grelha preparado pelos barqueiros, com o pé na areia e ancorados em um não-lugar qualquer.

Nesse meio-tempo, nos despedimos das duas maiores embarcações. A expedição diminui de porte e avança em um trecho mais inóspito. Dizem que o “fator Amazônia” sempre pode trazer imprevistos para qualquer planejamento por ali. Alguns acontecem. A ideia era prosseguir até a Cachoeira do Aruá, mas não é possível devido à seca que impede passagem.

Por outro lado, vamos ao Igarapé do Curi, um lugar indescritível com sua maravilhosamente clara água de onde as árvores nascem e se retorcem. Sendo um trecho estreito, raso e cheio de algas, chegamos de poucos em poucos a bordo de uma pequena canoa de madeira. Eu comigo mesmo me belisco: cara, olha onde você está.

Último dia. Ao anoitecer, o fio será puxado da tomada. Quero tudo junto e agora, o mashup dos greatest hits. Churrasco de peixe dentro da água com sol, música, bebidas e sorrisos. A melhor farofada da qual já participei.

E descobri que a pista de dança onde a batida é perfeita não fica na terra. Ela flutua.

foto: @lauraqueiroz

É o dicionário quem diz. Estar é ser num dado momento. É, em certa condição, achar-se.

Foram 8 dias em que não precisamos pensar, buscar, conquistar. Foram 8 dias em que bastou estar. Naquela porção de não-lugares com aquelas pessoas sem ver o tempo passar. Difícil é voltar, mas posso apenas agradecer por ter ido.

Adeus, ano velho. Feliz ano novo.

Se você deseja mergulhar em uma experiência como essa, entre em contato com a AMZ.

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Sou um redator, roteirista e produtor de conteúdo autônomo. Estou sempre disponível para conversas, propostas e cafés. Fique à vontade para me chamar pelo Facebook ou mande um e-mail no daniel@textaria.com

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Namastê.