Muñecos me mordam

Minha primeira vez com neve foi aos 34 anos. Foi em Bariloche que comi neve, mijei na neve, desci de esquibunda na neve, desci de esqui e caí de bunda na neve. Onde fizemos também um bonito exemplar de boneco de neve brasileiro.

Muito prazer, neve

Daquela semana, os últimos dias foram em Buenos Aires. Com direito a purês de papas, Malbecs e pracinhas. A cidade nunca deixa de encantar, mesmo um visitante reincidente.

Na manhã do domingo em que voltaríamos a São Paulo, fomos turistar na feira de San Telmo. Compramos uma ovelhinha de crochê para a bebê daquela amiga que pariu enquanto viajávamos. Também adquirimos duas canecas para nosso enxoval desfalcado, uma delas da Mafalda. E listo. Até a escultura hiper-realista de um ícone dos anos 80 sequestrar nossa atenção.

A placa dizia “Muñecos — $ 10”.

Tem coisa que você nunca precisaria comprar na vida. Mas só abre mão disso se estiver sem puto algum — e olhe lá.

Compramos, lógico. Um muñeco do E.T. perfeitamente esculpido em plástico com preço equivalente a R$ 2,50? Não é todo dia que a gente tropeça numa pechincha como essa.

E não se larga um carinha assim à deriva no planeta, ainda mais na Argentina.

Com uma ovelha, duas canecas e o extraterrestre na sacola, tomamos um táxi rumo a Palermo para a derradeira refeição na capital hermana. O gostinho da beleza da vida foi sentido no Osaka, onde comemos feito imperadores japa-peruanos.

Uma garrafa de vinho na cabeça, talvez duas, deu a hora de buscar as malas no hotel. Para partir com aquela sensação de ter deixado algo no caminho.


Já de volta à rotina em São Paulo, lembrei da sacola esquecida sob a mesa. Pânico, vertigem, desespero. A bebê ficaria sem ovelha. Nossa casa ficaria sem canecas. Minha vida sem um E.T. de plástico.

Entrei no site do restaurante e mandei um email. Vai que… né? Na mensagem, carreguei de leve no caô. Falei sobre como estava desolado, como aquelas bugigangas eram estimadas, um presente cheio de sentimentos da Argentina para meus sobrinhos. Perguntei se poderiam enviar por correio com cobrança na chegada. Ponderei que não era preciso mandar as canecas, que elas não sairiam ilesas da viagem. E fiquei à espera.

Noites depois, vem a resposta pelo Whats App. A ironia da situação tinha nome próprio: chamava-se Hilário o encarregado de resolver meu problema. Sério.

Hilário, que poderia se chamar Gentil, confirmou que a sacola fora encontrada. Disse que inclusive tentaram devolvê-la, mas já tínhamos partido. Arxentino xente fina, pediu meu endereço e perguntou se eu preferia despacho por terra ou avião. Respondi a tudo y muchas gracias.

Uma semana depois, ele me chama novamente:

No puedo cobrar en destino, debo pagarlo aqui en Buenos Aires.

A remessa custaria uns 600 pesos, algo equivalente a 150 reais na cotação do momento. Levar o E.T. pra casa começava a sair caro. E a isso se somava eu não fazer ideia de como transferir o dinheiro para Hilário. Conta no Paypal ele não tinha. Internet bank? Que tipo de cobrança abusiva o banco me faria por uma operação como essa?

Cogitando capitular, saí abrindo malas, porta-níqueis e bolsos de roupa suja para descobrir que nem todos os pesos da viagem tinham ido pelos aires. O preço do resgate permanecia em nossas mãos.

Vou muquiar esses pesos num envelope e enviar pelo correio. Se chegar, chegou. Se não, paciência.

Sem planos de retornar ao país no curto prazo, valia a aposta. Nem que fosse pela história pra contar.

Mas Hilário veio com uma solução mais adequada àquele problema específico. Já ouviu falar na Western Union? Eu desconhecia até então e não recebi qualquer cruzado por citá-la nesse texto. Apenas que lá ele tinha conta, da qual me passou os dados.

No dia seguinte eu caminhava pelo centro de São Paulo rumo à Galeria Nova Barão. Não foi difícil encontrar a agência. Tinha gente saindo pela porta. A julgar pelos traços étnicos visíveis, gente dos Andes, do Haiti, da África, gente asiática. Humanos estrangeiros, imigrantes ou refugiados, na legalidade ou à margem dela — vai saber. Peguei senha, entrei na fila e esperei escutando curioso aquela playlist de línguas.

E ouvi uma senhora comunicar em portunhol o envio de 200 reais pra Cochabamba.

Apesar de ser tudo na lei, a atmosfera do lugar era de clandestinidade. Rabos de olhar, mãos enterradas no bolso ou agarradas na bolsa. Aquele sentimento que todos enfrentamos quando precisamos dizer quanto dinheiro temos, mostrar ou guardar um maço de notas, sair andando com ele pela região que concentra mais malandros em qualquer cidade. Quem curte?

A operação, porém, é clara e simples. Descubro isso quando chega minha vez, explico o que desejo e dou o número da conta de Hilário.

Além de fazer transferências em dinheiro para o mundo, a empresa é também uma casa de câmbio. Então eles recebem suas notas estrangeiras, convertem no dinheiro do lugar onde você está e, pela remessa ao exterior, é cobrada determinada tarifa em moeda local. Dali a 40 minutos, Hilário já poderia sacar seus pesos em qualquer agência no país dele, de Palermo a Jujuy. Se há alguma taxação também no saque do destinatário, aí já não sei responder.

Nesse modelo de negócios, uma sacola e um alçapão têm papel estratégico. Foi através deles que os pesos sumiram da minha frente, se transformaram em crédito na conta de Hilário e em reais de troco para mim. Bastou alguém puxar a corda.

Ao fundo do guichê, a sacola pendurada no alçapão mágico.

Caminhando pela 7 de Abril na saída, avisei Hilário sobre o envio. Na manhã seguinte, ele me confirmou o recebimento.

Só pela boa vontade do cara e pela impossibilidade de usar aqueles pesos que estavam comigo, já achei do bem a coisa toda. Se ficasse por aí, não me sentiria prejudicado. Ao invés de acumular cédulas que a cada dia perdem um pouco do seu valor, daria uma recompensa a um desconhecido por se mostrar disposto a me ajudar.

Mas, semanas depois, pouco mais de 1 mês desde o prefácio desse texto, o porteiro do meu prédio me estendeu uma caixa azul. Na tampa, a estampa do serviço postal argentino. Dentro se encontravam a ovelha, o muñeco e inclusive as canecas.

Canecas quebradas, claro.

Se o E.T. agora está em casa, é porque nesse episódio um terráqueo deu uma nova razão para crer na bondade humana. Que 2017 seja um ano incrível para todos os hermanos pelo mundo. Suerte!


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Sou um roteirista, redator e produtor de conteúdo autônomo. Estou sempre disponível para conversas, propostas e cafés. Fique à vontade para me chamar pelo Facebook ou mande um e-mail no daniel@textaria.com

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Namastê.

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