Pensando fora do tupperware
Não é um rascunho entre tantos outros que empilho na pasta. Não é a transcrição de um papel esquecido na gaveta, resto de nada onde registrei impressões aleatórias sobre algo qualquer. Foi agora mesmo que comecei a escrever essas palavras. E minha maior pretensão com elas era parar de pensar.
O ponto de chegada do emissor aqui nesse final de 2015 está cheio. De dúvidas sobre qual sim gostaria de ter em mãos e certezas sobre os nãos que já guardo nos bolsos. Desconheço o destino da próxima condução a tomar, que horas ela passa e se encontrarei lugar para sentar. Mas tenho total certeza sobre quais são os nem pensar e os de modo algum.
Sob risco de me sentir infantil, melhor nem reler o último parágrafo. Trinta e três anos e ainda nessas?
Reli. A dinâmica vem sendo bem assim: escrever, desconfiar do escrito, reler, duvidar se queria ter dito. Ensaiar passos, dar passos em falso, discutir comigo mesmo o que se passa. O resultado é que penso, penso, penso nisso, naquilo e em nada disso. O resultado é uma letargia angustiante. Uma prova em circuito oval onde conduzo sem ter certeza sobre quantas voltas preciso mais e quantas ainda aguento. Por favor, alguém dê a bandeirada antes que o motor se funda.
Sabe aquele e-mail que você esperou chegar a manhã inteira para poder almoçar? Aquele e-mail previsto para essa semana com a resposta daquele assunto que vem sendo tratado há meses? Aquele e-mail dourado contendo a chave para um novo mundo onde é possível viver feliz para sempre? Na minha caixa de entrada ele nunca entrou. Parece que vou ter que escrevê-lo. Quando tiver clareza sobre o tamanho, a cor e a família da fonte. Quando definir em qual língua enviarei a mensagem: uma que já domino ou outra que precisarei aprender.
Nada disso importa mais do que simplesmente começar a escrever sem pensar demais no que vai pensar quem ler.
Na organização e planejamento dos dias, listas me ajudam mais do que a memória. Elaborei uma lista de possibilidades e ticar todas nem é tão difícil assim. Tomar a iniciativa para executar a primeira é que é. Para avaliar qual será, abro abas e me esquivo. Ô abre abas, que eu vou evitar. Faço nada enquanto penso sobre o que não fiz. Vou esperando o raio que me parta para não precisar decidir o que fazer quando somente pensar já não der mais. E, hum, veja bem: já não tá dando mais.
Os cachorros na sala me observam. Aguardam uma atitude, qual será? Passeio, petisco, carinho? Vejo no pote que comida ainda tem. Explico que não dá para sair porque está chovendo. Após uma manhã de quietude, quebro o silêncio verbalizando explicações a dois animais.

Lá se vai mais de hora desde que comecei a digitar essas palavras. Lá se vai mais de ano desde que escolhi caminhar sobre pedras soltas. Enxugo gastos, evito supérfluos e ganho o máximo de tempo possível antes que os recursos se esgotem. Vou tentando encontrar o RG que perdi ou descobrir onde tirar um novo em folha.
Já é hora do almoço e o e-mail simplesmente não chegou. Lidar-se-á com isso.

Se é que existe um banquete servido em algum lugar, talvez a parte que me caiba tenha o mesmo sabor de ontem. E sei que o tupperware está logo ali na geladeira porque eu mesmo deixei lá. Quem passa fome não pensa tanto antes de comer quando existe algo à disposição.
.:.
Curtiu o que leu aqui? Agradeço demais se puder recomendar esse texto clicando no coraçãozinho aí embaixo ou compartilhando nas suas redes ☺
Sou um redator, roteirista e produtor de conteúdo autônomo. Estou sempre disponível para conversas, propostas e cafés. Fique à vontade para me chamar pelo Facebook ou mande um e-mail no daniel@textaria.com
Para conhecer mais do meu trabalho, acesse esse link, esse outro ou esse aqui.
Namastê.