Time or money

Menos segurança financeira ao final do mês e mais flexibilidade. Como resultado dessa equação surge um conflito clássico: o bom (bom?) e senil tempo é dinheiro. Taí uma constante no cotidiano de quem vive a autonomia do trabalho em home office.

Na hora do almoço tem um exemplo. Comer fora diariamente vira um hábito caro quando não existe ticket reabastecido todo fim de mês. Fora que fazer refeições no conforto do lar não tem preço. Quando vendia horas e presença física para o mercado corporativo, cada oportunidade de almoçar em casa era uma benção sem tamanho. Tanto melhor se fosse na residência alheia: do pai, da sogra, do pai de amigo, da sogra de amigo. Comida feita com carinho, ingredientes de procedência conhecida, o papo passando longe dos problemas de expediente.

Trabalhando na sala de casa, comendo na cozinha de casa. O prazer se tornou diário, somado à satisfação de preparar o próprio alimento. Mas, a não ser que você seja aquela pessoa bem disposta que ocupa os domingos com o planejamento dos almoços pra semana, cozinhar em dia útil toma tempo. O relógio avança mais do que quando apenas sentamos, pedimos, comemos, pagamos.

Então ficamos assim: gastar dinheiro e manter os ponteiros sob controle ou economizar recursos consumindo tempo?

Mesma coisa em relação à manutenção do lar. Tínhamos uma empregada doméstica com carteira assinada. Foi um luxo que nos permitimos numa época em que trabalhávamos fora, trabalhávamos sem previsão de sair e, enquanto trabalhávamos, nossos cachorros passavam o dia esperando a gente voltar. Trouxemos a diarista para o mundo CLT e os animais ganharam companhia às segundas, quartas e sextas. Fazia sentido.

Pois no momento em que mudamos nossas matrizes produtivas para o endereço de casa, a funcionária começou a sobrar. Três vezes por semana, ficávamos horas confinados no quarto enquanto ela tomava conta do apartamento. No almoço, até para não atrapalhar sua produtividade, procurávamos comer fora quando ela vinha. Mas aí voltamos à segunda frase do segundo parágrafo desse texto.

Não era só. Passando mais tempo em casa, dava para absorver tarefas domésticas que até então ficavam aos cuidados da empregada. Arrumar cama, lavar louça, roupa, estender no varal. Com menos dinheiro entrando e mais tempo livre, o arranjo anterior ficou insustentável e o resultado é que Cecilia foi demitida.

“Eu entendo, é a crise” — ela falou.

Foi assim que nosso job description de trabalhadores autônomos ganhou um to-do a mais: a arrumação do dia a dia. Aquele trabalho invisível que milhões de mulheres brasileiras exercem dobrando turno.

Num belo sábado de sol, descobrimos as dores físicas que resultam da faxina pesada. Minha mulher e eu ouvindo samba no talo, passando apirador e esfregando privada, para depois cair matando um prato de peão no Ugues. Até Campari tomei.

Se vamos continuar gastando tempo para economizar dinheiro com refeições e cuidados do lar? Talvez seja questão de planejamento e adaptação. Planejamento para preparar almoços de antemão e adaptação a um estilo empoeirado mais europeu. Algo diferente dos hábitos de higiene doméstica brasileiros sustentados na mão-de-obra mucama.

Um aprendizado sem dúvida é o de valorizar mais os momentos em que nos permitimos comer fora. E uma certeza adquirida é a que esse tweet visualizado há algumas semanas bem resumiu.

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Sou um redator, roteirista e produtor de conteúdo autônomo. Estou sempre disponível para conversas, propostas e cafés. Fique à vontade para me chamar pelo Facebook ou mande um e-mail no daniel@textaria.com

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Namastê.

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