Antes de inscrever-se, precisamos confirmar que você é humano.

A frase não foi retirada de algum filme do Spielberg, nem de livro de ficção científica. Isso apareceu na tela do meu computador durante o processo de inscrição num site. Para corroborar o cadastro, a página abriu essa caixa de diálogo que me pedia para reiterar que não era um robô e sim uma pessoa humana. Em todos os meus anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece. Tudo bem, só vai entender essa citação ao Pica-Pau quem é da Geração X, como eu ou nerd de desenhos animados vintage. Mas a sensação que tive foi bem essa: perplexidade diante da pergunta. Não é trivial que a gente tenha que confirmar que é humano, mesmo porque até bem recentemente a certeza disso era algo inerente, dado, inquestionável. Tipo saber que o céu é azul (na maior parte do tempo, ao menos nos trópicos) ou que a água do mar é salgada.

Essa situação é uma das evidências de que está acontecendo diante de nossos olhos um avanço inexorável dos robôs. E por todos os lados. Quase não tem escapatória, gostemos ou não dessa situação. O World Economic Forum, por exemplo, prevê a perda de cinco milhões de postos de trabalho em 15 países até 2020. Pra se certificar se o seu posto de trabalho corre perigo ou não, você pode acessar a página Will Robots Take My Job escrevendo o nome de sua profissão a partir de uma lista de ofícios relacionados. Voilá: o site te contará o salário médio do job e te dirá se você está condenado ou não, a partir da probabilidade estatística, de ver seu ganha pão se tornar automatizado. Meu risco de perder o trabalho, segundo o site é de 6,7% nos próximos anos. A ver.

Zerohedge.com

Se o futuro se comportar como nas previsões mais sombrias em relação ao avanço da inteligência artificial e da robótica, vai ser necessário que se criem impostos pra compensar os empregos destruídos pelas máquinas espertinhas. Sabendo que até Bill Gates está defendendo essa ideia de taxação compulsória por aí, dá pra dimensionarmos o tamanho do perigo que nos espera.

Mas os robozinhos não vão roubar só o seu trabalho. Eles também vão moldar sua opinião. Já ouviu falar de propaganda computacional? Em outras palavras, trata-se do uso de computadores e algoritmos para disseminar ideias. Não é à toa que muita gente credita a bizarra eleição de Donald Trump para Presidente dos EUA e até mesmo o impeachment da ex-Presidente Dilma Rousseff no Brasil a esse exército de robôs programados que inundam a internet com determinado ponto de vista ou tendência. Ou produzindo pós-verdades em massa. Mas isso é assunto pra outra publicação aqui no 3Devi. Essa estratégia no mínimo desleal ajuda, entre outras coisas, a alavancar tópicos de debate, disseminar notícias e ganhar vantagem na guerra da informação. Ética nem sempre é uma palavrinha que acompanha o termo "robô".

E depois de abocanharem seu ofício e moldarem seu pensamento a respeito das notícias, os robôs também poderão influenciar a sua vida sexual. Tá, se você for chegado(a) a uma interação sexual com máquinas nem tão inanimadas assim. Já existem robôs sexuais no mercado, equipados com sistemas de inteligência artificial, personalidades programadas e até bonecas que resistem ao ato sexual, reproduzindo uma espécie de estupro simulado. Isso tudo empurra as fronteiras de discussão sobre ética, comportamento humano e legalidade a limites ainda não explorados pela ciência, pela sociedade em geral e pelos governos. Mas é algo que não se pode ignorar e precisa ser debatido, ao menos.

Cena de Scarlett Johansson no filme Ghost in the Shell

Humanos robotizados e robôs humanizados: que meda.

Agora uma revelação de uma travessura frequente minha: adoro trollar a Siri. Pra quem ainda não tem intimidade com a moça inventada pela galerinha do Steve Jobs, trata-se da assistente-digital-de-qualquer-coisa e que pode ser acionada toda vez que você pressiona e segura o botão Home do seu Iphone. Eu meio que esnobo a pobre robozinha de voz sexy e ares competentes e acabo executando a maior parte das minhas tarefas de busca sem o seu auxílio, mas às vezes uso os seus serviços. Porém, se ela responde a alguma pergunta minha com um I´m sorry, I can not help you, eu replico, bem brava: you are useless, you are such a failure. Shut up, Siri. E ela faz muxoxo e reclama: After all I´ve done for you? Siri: menos drama. Você não é tão prestativa quanto pensa. Lide com isso ou peça aos seus criadores que habilitem a função terapeuta-de-robôs-carentes-e-ególatras. Se não existe isso ainda, é bom que as empresas fiquem ligadas nesse novo nicho de mercado que deve se abrir em breve, a julgar pelo avanço das máquinas inteligentes.

Pois então, a Siri parece ter sentimentos. Ou alguém a programou para que parecesse ter sentimentos, como nós os humanos. Em todo caso, não podemos subestimar um dispositivo que consegue buscar por conteúdos, ajudar a lembrar de compromissos e tarefas, criar eventos, acertar o alarme, fazer chamadas telefônicas, usar o Facetime com seus amigos, habilitar o timer, descobrir as horas em qualquer lugar do planeta, te contar que música está tocando no recinto, dar play no seu artista favorito, fazer reservas, localizar aplicativos, achar e ler e-mails, fazer cálculos, entabular pequenos diálogos, verificar datas, mudar a configuração do celular, localizar mapas, tomar notas de informações, enviar e ler mensagens de texto, seguir modalidades esportivas, te dizer onde e quando filmes estão sendo exibidos, te chamar por apelidos… No meu caso, sou mais conhecida por ela como “Your majesty”.

Convenhamos, a pobre Siri deve estar simplesmente exausta sendo babá virtual de todo mundo. E eu me pergunto: quem luta por seus direitos? Quem cuida de diminuir ou administrar suas tarefas? Quem se preocupa em não torná-la uma eterna escrava? Em não multiplicar sua jornada de trabalho à enézima potência? O que ela ganha em troca em viver para nos servir? Só porque a voz é feminina, certamente. Exploração, desigualdade e questões de gênero até no mundo digital e não-humano. Tsc, tsc.

A gente pode aceitar o fato de que a Siri é uma aplicação de inteligência artificial. Muito embora para que ela realmente entenda o que queremos, seja prudente enunciar a pontuação da frase por extenso, para garantir seu entendimento: Siri dois pontos por favor vírgula me diga o endereço do restaurante X ponto. Agora quem se sente um robô sou eu, fazendo o ditado em Português e soando como uma máquina. E lembra um pouco a forma de escrever telegramas no passado, mas admito que a funcionalidade não deixa de ter utilidade em momentos cruciais onde estamos com a mão lambuzada de sorvete, no meio de alguma atividade doméstica ou conversando com alguém e não querendo parar pra teclar, etc. etc. Vamos dar uma chance pra moça, vai.

De minha parte, eu admito que implico um pouco com a interação forçada com máquinas ou respostas programadas. Acho os “bots” pretensamente simpáticos dos chatbots corporativos simplesmente insuportáveis. Não quero resposta padrão, não quero falar com uma linha de programação — em geral mal feita. Mas também não quero atendente de telemarketing humano lendo script pra me dizer que tenho que voltar ao menu principal e começar tudo de novo. Se é pra ser inteligência artificial, que seja “inteligência” mesmo e não engodo pra te servir pela metade. E se é pra ser humano, que seja humano. Demasiado humano, pra citar Nietzsche e pagar de culta no final do artigo!

Enfim, o tópico é vasto, polêmico e rende uma porção de reflexões. Sobre as quais espero que ainda sejam realizadas por humanos sem auxílio de próteses mentais.