Um conto sobre bisbilhotagem (Versão em português)

Uma história inspirada por uma conversa alheia. Eu estava na estação Malden Center, Boston, esperando por um Uber. Um cara passa falando ao telefone, ele tinha um sotaque e dizia: "Ah, cara, eu não sei com estou me sentindo agora. Ela sempre faz as coisas pelas minhas costas." História escrita para um exercício do curso que fiz em Harvard.

Era segunda ou terça, não me lembro com exatidão. Eu sei que estava frio e ventando muito, aqueles dias que as pessoas geralmente não saem de casa. Pessoas em geral, não eu. Desde o verão passado eu decidi que iria correr todos os dias da semana, e eu corri; mas agora que chegou o inverno, é difícil cumprir essa promessa mas ainda estou tentando.

Num desses dias eu sai de casa um pouco mais tarde e já pude notar algumas pessoas que eu nunca vi antes. Não muitas, só um pouco. Uma delas era um cara. Ele estava sentado no jardim. Era impossível não notar aquela situação. Ela estava sentado na grama fria, abraçando os joelhos, olhando fixamente para frente e chorando desesperadamente como uma criança pequena. Eu não sabia o que era aquilo, parecia um filme do David Lynch, uma cena patética e randômica construía para me enganar. Eu deveria tentar acolher ele ou falar alguma coisa legal? Eu realment enão sabia o que estava acontecendo nem como me aproximar dele. Mas agora que eu estava parada em frente ao cara, eu não pude evitar. Ele notou que eu estava ali e começou a encarar. eu fiz o mesmo, só que sem dizer uma palavra. Eu não estava mais aguentando, então eu perguntei pra ele:

-Como você está hoje ? — eu tentei não parecer muito preocupada

  • Ah, cara, eu não sei como estou me sentindo agora — ele deita a testa nos joelhos e começa a chorar mais alto. Por mais que o sofrimento dele parecesse patético, eu sentia muito por ele e estava intrigada. O que poderia ter acontecido para tê-lo deixado em condição tão vergonhosa? Então, eu me sentei naquela fria e molhada grama e ofereci a ele um olhar firme, até que ele encontrou coragem para ter uma conversa decente com uma estranha. Ele me olhou de volta e falou, como se me conhecesse há muito tempo: — olha, é ela de novo. Ela sempre faz coisas pelas minhas costas!
  • Eu sei como é isso! — eu disse, pois realmente sabia como estava se sentindo. Eu estive naquela mesma posição por alguns anos e no fim descobri que meu ex estava me traindo mesmo, eu acho que por isso senti empatia por aquele homem.
  • Obrigado! Obrigado! Eu só estou desolado e perturbado depois do que aconteceu.
  • Fique à vontade para me contar, se quiser.
  • Ela sempre me faz de besta. Eu conto tudo para ela. Quando eu sou sair, com quem, eu envio mensagem pra ela a noite inteira quando não estamos juntos, aviso que horas chegarei em casa e tudo mais. Cada detalhe eu comunico pra ela só para evitar conflitos — Eu sabia exatamente como era aquele tipo de relação. Eu tive uma parecida com meu ex. Muito estressante — mas ultimamente ela não tem respondido a algumas de minhas mensagens e às vezes ela nem atende minhas ligações. Ontem cheguei em casa mais cedo e descobri que ela comprou um Macbook pra ela. E ela não me contou nada!
  • Então, vocês moram juntos, certo ? — eu estava muito preocupada com ele. Tadinho. Eles dividiam as contas, ela não poderia ter comprado uma coisa tão cara sem contar pra ele.
  • Claro! Desde que nasci moro com a mesma mulher.
  • Como assim? — espero que ele tenha sico sarcástico.
  • Deixa eu te perguntar. Você mora com quem?
  • Com uma colega de quarto
  • Bem, eu também.
  • Ah, achei que você tivesse problemas com sua namorada ou esposa, não colegas de quarto. Você deveria se mudar. Tente encontrar outro lugar pra morar — de repente ele me interrompe, falando alto:
  • Claro que não! Eu nunca ficaria longe dela, não posso deixá-la sozinha.
  • Bem, ela parece ser bem independente. Ela vai ficar bem, você deveria tentar procurar outro apartamento. Posso te ajudar com isso, sou corretora. Aqui está meu cartão e o pode me ligar quando quiser — ele pegou o cartão e analisou.
  • Vou contar pra minha mãe, ver o que ela acha. Talvez ela se mude, com seu novo Macbook. Obrigada por sua ajuda, com certeza vou ligar — Nos cumprimentamos e imediatamente corri dali, com a esperança que nunca receberia uma ligação daquele doido.
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