O teu feminismo morre no corpo da tua amiga?

Tenho pensado muito sobre os limites e as contradições do feminismo. E uma das coisas que mais me chamam a atenção é a questão do corpo. Vejo mulheres que bradam no Facebook que a mulher pode ser o que ela quiser, que deve ganhar o mesmo que homens e que é dona do seu corpo e de sua vida. Tudo muito bonito no discurso. Na vida privada, entretanto, ainda julgam corpo alheio e, pior, o próprio. Nunca está bom, há sempre, mesmo entre as magras ou as com IMC perfeitinho, 2 ou 3 quilos a perder. Ou uma insatisfação constante e latente com a própria imagem.

E aí você pode me dizer: mas querer ter um corpo bonito e saudável não faz de mim menos feminista. Então, senta aí, vamos conversar: se o cenário que envolve nossas vidas não fosse esse extremamente machista, no qual a beleza feminina é tida como um troféu e um trunfo, talvez você tivesse razão. Mas, veja só, não é assim e você sabe disso. Recentemente entrevistei uma professora da PUC-RJ, a psicóloga Joana de Vilhena Novaes, que é uma craque no assunto, com vários livros publicados. Ela tem a teoria de que vivemos na era da “pastoral do suor” e da dieta na qual o corpo perfeito é fruto de esforço, mérito próprio, dedicação — a mesma lógica meritocrática do trabalho.

Ilustração da americana Rachele Cateyes, que faz uma série de ilustras sobre o tema. Vai lá: https://www.redbubble.com/people/glorifyobesity

A pressão que antes estava só nas capas de revista e na TV hoje está em todas as redes sociais, e você tem que ser bonito e gostoso para postar uma foto que mostre o seu corpo. Do contrário, recolha-se à sua insignificância (enquanto refletia sobre esse assunto, Preta Gil fez uma série de postagens no Instagram cada dia com um biquíni diferente — não preciso nem dizer qual foi o nível de parte dos comentários né?). Quando perguntei à Joana se essa pressão social era maior sobre as mulheres, ela deu uma deliciosa gargalhada carioca e disse: “Opa! Quais são os xingamentos para uma mulher? Feia! Gorda! Puta! Mas a puta ao menos é desejada, e ser desejada, bonita, jovem, faz parte da questão identitária da mulher — uma mulher bela e atraente está no mercado casamenteiro, ela está apta a casar, a ter filhos. Do contrário, ela encalha. E encalhada é outro xingamento no Brasil”.

Esse raciocínio me fez lembrar de outra carioca ótima que já entrevistei pelo menos umas três vezes, a Mirian Goldenberg. Miriam tem a teoria de que ter marido, no Brasil, é um capital valioso entre as mulheres. Assim, a beleza é um ativo importante para obter outro ativo de ouro: homem. Deprê, não? Eu acho. E aí fica claro como a questão do corpo ainda é uma das maiores barreiras do feminismo — queremos taaaanto ser livres, mas ainda somos tãaaaao presas aos modelos vigentes.

Em um artigo recente na Folha de S. Paulo, “Nosso corpo nos pertence?”, Miriam faz uma bela análise sobre a relação da brasileira com seu corpo e como isso vem afetando a nossa vida sexual. Lá pelas tantas, após mencionar doenças como anorexia, questiona: “O que estamos fazendo, no nosso cotidiano, para deixarmos de ser coniventes com um modelo de sexualidade e de corpo que provoca tanto sofrimento e exclui a maior parte das brasileiras?”.

Eu respondo: estamos piorando a situação. Porque ficar falando de dieta e estética o tempo todo, além de uma baita perda de tempo, tempo que pode ser usado em questões seríssimas como combater a violência contra a mulher e lutar por salários iguais, é uma forma de opressão — mesmo que você não perceba.

“Se cuida, hein?”

O ano era 2014 e eu tinha sofrido uma crise de pânico em janeiro. Em dezembro, eu tinha dez quilos a mais no meu corpo. Claro que tenho espelho em casa e sabia que estava mais gorda, mas a minha prioridade era cuidar da cuca. E assim fiz. Com o passar do tempo, mesmo indo à academia com frequência e (ao menos tentando) moderar na gulodice, aquela gordura extra não ia embora. Eu tinha três opções: fazer uma reeducação alimentar com nutricionista, fazer uma lipo (o que, definitivamente, não é a minha) ou amar meu novo corpo. Optei pela terceira.

Mas é difícil amar seu corpo quando ele não é o esperado (e, veja, estou falando de um mero sobrepeso). Nessa época, uma amiga veio nos visitar e, após uns dias, disse: “Débora, se cuida, hein? Que o André está se cuidando”. Eu ri um riso meio nervoso. Mas depois veio a real: que frase mais machista da porra! Primeiro porque a mulher tem que ser magra (capital número 1) e precisa sê-lo para a apreciação do olhar masculino (capital número 2). E justo essa amiga, uma das mais combativas feministas de rede social. Que decepção. Fora que ela desconsidera várias outras questões particulares; André é magro por natureza, é homem e seis anos mais novo que eu. Não quero me redimir dos meus pecados da gula, mas as questões de peso são muito complexas para caber em uma comparação rasteira.

Passei a fazer uma busca mental e me dei conta de que não tenho amigas gordas. Que, no geral, eu sou a mais pesada das rodas. E — tcharam! — que nenhum amigo namora/é casado com uma mulher que sequer está com sobrepeso (só meu marido). Puxei na memória: nada, nem as ex deles. Aliás, nunca vi meus amigos mais próximos nem com mulheres negras (e aí já é outra discussão, mas não deixa de ser interessante essa constatação). E olha que estou falando de caras que são, em sua maioria, bacanas, cabeças abertas, com dosagens menores de machismo. Só que são homens, né? E assim como a mais feminista das minhas amigas ainda não conseguiu se libertar da opressão do corpo, os homens também não são totalmente livres das machezas e machices. Eles se sentem atraídos pelas mina padrãozinho e querem desfilar com as mina padrãozinho — até os meus dois amigos mais gorduchos estão sempre com meninas magras. Coincidência?

Sim, queremos ser bonitos, sentirmos que somos desejados, queremos estar no radar daqueles que nos atraem. Isso tudo é muito normal e saudável. O que eu questiono aqui são os padrões do que é considerado bonito e a abismal diferença de cobranças em cima das mulheres e dos homens; da fartura de opções que os homens têm— por todas as razões citadas acima — enquanto as mulheres precisam almejar ser o que não são para garantirem um capital qualquer (quantas mulheres você conhece que namoram homens-bosta só para não estarem só? E fazem dieta, academia, lipo, se entopem de maquiagem e de modismos só para garantir que esse capital seja eterno?).

Daí não adianta nada compartilhar aquele meme fofo ou aquela propaganda de sabonete que diz que você tem que se amar como é e ser bonita para você antes de tudo. Porque aí, minha cara, suas ideias não correspondem aos atos. No dia em que as mulheres se sentirem lindas como são, para elas mesmas de fato, aí sim teremos uma senhora, portentosa e feminista, revolução dos hábitos.