Cantores Sertanejos e a moda que não queremos

Há uns dias atrás Gustavo me mandou o link de uma reportagem da Folha de São Paulo cujo título era “Cantores Sertanejos constroem o novo padrão de vestimenta do brasileiro” e ele me disse que “formadores de comportamento e opinião estão fazendo o oposto do que você acredita”. A reportagem fala basicamente que cantores contratam stylists e consultores de imagem para dar aquela forcinha na hora de se vestir, como a vestimenta sertaneja mudou com o tempo e os valores que giram nessa história.

Quero aqui falar que moda é um trabalho muito sério e que construir o armário de alguém envolve zilhões de questões, como lifestyle e a imagem que se quer passar. Moda não é brincadeira, nem na vida, nem na música — e assim deve ser tratada com seriedade e responsabilidade.

A questão que o Gustavo comentou comigo e que me incomodou muito na reportagem foi a exaltação do consumismo desnecessário, dizendo que os artistas “nunca repetem roupa”. E nos apresentam dados: 120 peças usadas em um único mês (se as peças não serão usadas novamente estamos falando de 1500 peças por ano!) e 20 mil reais gastos em média numa compra de roupas em lojas internacionais. Será mesmo que isso é legal e uma boa influência para os brasileiros?

Não podemos nos esquecer do poder das celebridades de influenciar para o bem ou para o mal, para gerar mudanças positivas ou não. Quando se está numa posição de prestígio cabe usar a sua voz com responsabilidade para ajudar a desconstruir velhos paradigmas que só trazem retrocessos e não para piorar a situação que vivemos.

No Brasil o consumo é muito visto como símbolo de status — quanto mais posso comprar, melhor pessoa sou. Vivemos sendo julgados — e julgando — pelas coisas que podem ser compradas. Na moda isso é muito perigoso, pois para o cidadão médio brasileiro manter esse “status” ditado pela mídia, acaba comprando em fast-fashions, que utilizam mão-de-obra mal paga ou escrava, ou então se endividando em infinitas parcelas, o que só aumenta a desigualdade social.

Eu entendo que celebridades devem ter uma agenda bem cheia e talvez não fossem atendidos por um armário-cápsula, por exemplo, mais daí usar 120 peças diferentes por mês é um exagero absurdo e desnecessário. Já inventaram a máquina de lavar roupas faz tempo e a gente precisa parar de disseminar essa ideia de que nossas roupas são descartáveis, principalmente estando em posição de influência.

Um ótimo exemplo de que não é porque se é artista que são necessárias dezenas de roupas diferentes por mês é a atriz Emma Watson — ela abriu seu guarda-roupas para o site Coveteur e, ao invés de um closet ostentação à la Carrie Bradshaw, pudemos ver uma quantidade razoável de roupas, que ela conta na reportagem que ama e repete. Ela também conta na entrevista que presta atenção naquilo que compra e seu apoio à designers mulheres, como está sendo sua participação no Green Carpet Challenge, com a Livia Firth, como ela acredita que a moda ética não é necessariamente mais cara e que há produtos acessíveis e a importância de comprar peças de segunda mão e cuidar daquilo que já temos. Ouuuuuuutro olhar né?

Além da quantidade exagerada de roupas, a reportagem da Folha fala que os artistas sertanejos vestem em sua maioria roupas compradas no exterior (Miami é o destino predileto dos artistas) quando nós temos um mercado de moda nacional muito rico e plural. No Brasil, a moda é o segundo maior empregador da indústria de transformação, está entre as cinco maiores Semanas de Moda do mundo e é o quinto maior produtor têxtil do mundo — não dá pra dizer que eles não têm opções de marcas nacionais para vestir e assim apoiar o que é nosso. É mais uma vez o status ditando as escolhas. Para não dizer que não vestem nada produzido no Brasil, a reportagem cita customizações feitas no Brás e Bom Retiro, em São Paulo.

Quando um artista veste uma determinada roupa pode fazer girar uma roda inteira de produção (não é à toa que artistas fazem campanhas para marcas de moda desde o tempo dos dinossauros) então por que não usar essa força boa para apoiar marcas nacionais, feitas por gente como a gente, e ajudar na geração de empregos e desenvolvimento da comunidade muito além da indústria da música/teatro/cinema?

No final das contas, se a roupa indiretamente fala, o que os artistas sertanejos estão querendo nos dizer?

Débora Schmidt Nardello

Written by

Rebelde com causa. Estilista da marca Lusco Fusco e professora de costura. Escrevo sobre moda responsável, consumo consciente, feito à mão e upcycling.

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