Fashion Revolution 2017: Dinheiro, Moda e Poder

Dia 24 de abril de 2013: mais de 1100 pessoas morreram e 2500 ficaram feridas com a queda do complexo fabril Rana Plaza, em Dhaka - Bangladesh. Lá funcionavam várias confecções que produziam para grandes marcas de fast-fashion. Antes da queda do prédio os trabalhadores haviam avisado os administradores sobre as rachaduras e a estrutura insegura do edifício, mas sempre eram forçados a voltar. Esse foi o maior desastre da história da indústria têxtil e o que deu início ao Fashion Revolution, um movimento por uma revolução na moda.

Desde a queda do Rana Plaza, em 2013, todos os anos o movimento Fashion Revolution convida as pessoas a pensarem e questionarem quem fez suas roupas, calçados, bolsas, acessórios, como essas peças foram feitas, onde, em quais condições. Para nós que trabalhamos com moda ética pode parecer óbvio que precisamos de uma mudança gigante na indústria da moda, mas qual a real importância do Fashion Revolution na nossa vida?

Quem faz nossas roupas?

A indústria da moda é a segunda maior do mundo — movimenta 3 trilhões de dólares ao redor do globo e estima-se que 1 em cada 6 pessoas no mundo trabalhe em algum setor relacionado a moda. A maior parte do lucro está nas mãos de empresas dos Estados Unidos e Europa, enquanto as peças são produzidas na sua maioria na Ásia, que é responsável por cerca de 70% da produção mundial de fios, tecidos e roupas. Na China, maior produtora, são produzidos 30% da produção mundial de moda. O segundo lugar fica com Bangladesh — onde aconteceu a queda do edifício que matou mais de 1100 pessoas.

O problema começa nas grandes varejistas de fast fashion que produzem suas peças nos países asiáticos onde os preços das roupas são menores já que nesses lugares praticamente não há leis trabalhistas ou ambientais, o que permite práticas de trabalho escravo e formas completamente irresponsáveis de produção.

Nesses fábricas sub contratadas das marcas, as pessoas, em sua maioria mulheres, trabalham por menos de 3 dólares por dia, com jornadas de trabalho exaustivas e em ambientes totalmente inseguros. Há trabalho infantil e privação de liberdade, assédio, violência e repressão de sindicatos.

O pagamento é feito geralmente por peça e os valores são tão baixos que os trabalhadores precisam trabalhar muitas horas para ganharem o mínimo para sobreviver — e se as fábricas pedirem pagamentos maiores ou o país tiver uma legislação mais rígida, as varejistas transferem sua produção para outro lugar. As marcas usam a necessidade das pessoas de trabalhar para usá-las como escravos.

Segundo a Organização Mundial do Trabalho (OIT), quase 21 milhões de pessoas são vítimas de trabalho escravo no mundo — e estima-se que essas pessoas gerem 150 bilhões de dólares de lucro (!!!).

Com a pressão de muitos consumidores sobre o uso de mão-de-obra em condições degradantes, muitas marcas passaram a fazer auditorias em seus fornecedores, mas muitas ONGs de Direitos Humanos afirmam que as empresas são avisadas antecipadamente sobre as vistorias e assim os gerentes têm tempo de esconderem as irregularidades.

No Brasil temos a Lista Suja do Trabalho Escravo, que é um cadastro das empresas que foram flagradas usando mão-de-obra escrava. Criada em 2003, é uma referência no mundo todo. Dos grandes produtores de têxteis e vestuário do mundo, o Brasil é o único que fiscaliza e responsabiliza empresas que têm fornecedores que praticam o uso de mão-de-obra escrava.

Mas afinal de contas, quem fica com nosso dinheiro?

Se comprarmos uma roupa de R$ 78,00– R$32,40 é markup (que é aproximadamente o lucro da marca), que é 41,6% do valor. R$ 13,20 são impostos do varejo. R$ 8,40 são transporte + outros impostos. R$ 6,80 é a mão-de-obra (somente 8,7% da peça). R$ 10,40 é a matéria-prima. R$ 5,20 outras despesas e R$ 1,60 o lucro da oficina.

E a questão ambiental?

Quando a indústria do fast-fashion chegou, mudou totalmente a forma de fazer roupas. Se antes haviam 2 coleções por ano (Primavera/Verão e Outono/Inverno), hoje algumas marcas criam até 52 coleções por ano, colocando novidades todas as semanas nas lojas, incentivando o consumismo e gerando lucros de muitos dígitos. E para abastecer esse modelo de negócios rápido e bilionário seguimos em direção à industrialização da agricultura para produzirmos mais e mais fios e tecidos. Se antes tínhamos um cultivo bastante sintonizado com a natureza, ligado ao ciclos e estações, hoje tratamos a terra como uma linha de produção.

O algodão, fibra mais produzida no mundo é um bom exemplo sobre porque a moda precisa realmente de uma revolução, partindo do início, onde são produzidas as fibras para os tecidos.

Sementes geneticamente modificadas, uso absurdo e irresponsável de fertilizantes e pesticidas, monopólio de sementes que faz com que os fazendeiros se endividem, perda da biodiversidade local… são apenas uma parte do problema e o exemplo aqui é só o algodão — temos ainda uma infinidade de outras fibras, tanto naturais quanto sintéticas. O uso excessivo de químicos nas fazendas de algodão (o algodão é responsável por 24% das vendas globais de pesticidas) é um perigo não só para quem trabalha diretamente nas plantações, mas para toda a comunidade em torno, pois contamina solo e água, aumenta riscos de defeitos congênitos, cânceres, doenças mentais e suicídio. Só na Índia, um dos maiores produtores de algodão do mundo, nos últimos 17 anos houveram registros de 250.000 suicídios de agricultores — quase uma pessoa a cada 30 minutos. Na busca por materiais cada vez mais baratos as marcas negam a responsabilidade pela saúde das pessoas e o meio ambiente.

Além de plantações cheias de químicos, a indústria do fast-fashion é absolutamente irresponsável também com a nossa água, na produção principalmente de couro, algodão, tingimentos de tecidos e outros beneficiamentos. Para a fabricação de uma calça jeans gasta-se 11 mil litros de água, o que equivale a uma pessoa bebendo 2 litros de água durante 11 anos (e quantas calças jeans você tem parada no armário mesmo?). A produção de uma camiseta simples gasta 3,9 mil litros de água. 90% da água usada no tingimento das peças é devolvida para os rios e oceanos sem nenhum tratamento — na China conseguimos saber a cor que será usada na estação só olhando para os rios! Na região dos curtumes de Kanpur, na Índia, 50 milhões de litros de água contaminada são despejados nos rios todos os dias. 20% da poluição total dos oceanos e mares provém da indústria têxtil.

E depois de tudo que poluímos para fazer as roupas, continuamos sendo irresponsáveis ao descartá-las: a quantidade de roupas e tecidos que vão para os lixões tem aumentado muito nos últimos 10 anos. Por pensarmos a moda como algo descartável e de baixo custo mais de 11 milhões de toneladas de lixo têxtil são descartadas todos os anos só nos Estados Unidos. A maior parte desse lixo não é biodegradável, ou seja, ficam nos lixões por 200 anos ou mais enquanto liberam gases perigosos no ar.

A moda é atualmente a segunda indústria mais poluente da Terra, perdendo apenas para a do petróleo (!). Estamos produzindo como se nossos recursos naturais fossem infinitos, como se pudéssemos usar solo, água, ar e tantos outros recursos a nosso bel prazer. A Terra tem um limite, não podemos continuar crescendo infinitamente. Claramente nós já ultrapassamos muitos desses limites e se continuarmos por esse caminho muito em breve entraremos em colapso.

A relação entre dinheiro, moda e poder

Moda é uma das muitas formas de comunicação. Na sua forma mais criativa nos ajuda a refletir sobre quem somos e nos conecta com pessoas de diferentes grupos, nos dando senso de individualidade e pertencimento. E mesmo quem diz não se importar com moda, consome roupas. E se essas roupas são produzidas com recursos naturais que são de todos nós, feitas por gente como a gente e empregam milhões de pessoas direta e indiretamente, então são responsabilidade de todos nós.

Por ano, são produzidas 80 bilhões de peças de roupas. Estima-se que no nosso armário há cerca de 30% de peças que não são usadas. Nós vivemos na lógica do consumo, tratando roupas como coisas descartáveis (que elas não são). Muitas pessoas compram roupas não tão boas só porque são baratas e as jogam fora facilmente pois custaram pouco — e fazem isso de novo, de novo, de novo. Roupas essas que foram plantadas, fiadas, tecidas, tingidas, cortadas, costuradas, transportadas e vendidas, que passaram por muitas mãos, que utilizaram água, solo, energia, recursos naturais e vão para o lixo depois de poucas vezes usadas. Isso não soa muito insensato?

Na nossa sociedade o consumo é símbolo de status. Quanto mais podemos comprar melhores somos vistos, como se o dinheiro de fato nos colocasse acima das outras pessoas.

“Eles estão nos fazendo acreditar que somos ricos ou endinheirados porque podemos comprar muito. Mas, na verdade, eles estão os empobrecendo. E a única pessoa que está enriquecendo é o dono da marca fast-fashion”. (Livia Firth)

E se nós, consumidores, somos parte do problema, também somos parte da solução. Comprar roupas baratinhas não é democrático — alguém, em algum lugar, está pagando o preço. Precisamos passar dessa lógica do consumo para uma lógica de respeito e cuidado. Todos nós queremos viver num mundo melhor, mais justo e igualitário e a moda tem um grande poder de alavancar as mudanças sociais e ambientais que queremos ver.

E nessa busca por uma moda mais ética, que seja boa para todos, procure saber como são feitas suas roupas, calçados, acessórios. Questione as marcas, pergunte quem fez, onde foram montadas, em quais condições. Se informe sobre matérias-primas. Compre de pequenos negócios que conhecem toda sua cadeia de produção. Apoie pessoas que fazem produtos de forma responsável, respeitando todas as pessoas no processo produtivo. Cuide das roupas que você já tem, lavando e guardando com carinho e cuidado. Troque, reforme, conserte. Busque um novo olhar sobre suas roupas. A revolução da moda é possível e estás nas nossas mãos.