Join Life — a nova coleção “sustentável” da Zara

Recebi essa semana a notícia de que a Zara, gigante espanhola do Fast-fashion, lançou no Brasil sua coleção de roupas sustentáveis. A coleção Primavera/Verão 2017, intitulada Join Life, traz criações com tecidos reciclados, Liocel e algodão orgânico, além de outras ações como embalagens recicladas e recolhimento de roupas em suas lojas.

Peraí, a Zara, autuada várias vezes por trabalho escravo, com produção de 11 mil modelos de roupas por ano, com uma coleção de moda sustentável?

É isso aí. Segundo o site, as roupas dessa coleção cumprem os padrões mais exigentes de saúde, segurança, e sustentabilidade ambiental, além de terem controle de qualidade ao longo da cadeia de produção para assegurar que os produtos são bons para as pessoas e bons para o meio ambiente.

Quero aqui pontuar porque essa coleção soa como marketing verde e não como ações que realmente podem mudar alguma coisa, uma vez que a sustentabilidade na moda (e na vida geral) não diz respeito somente à matéria-prima e ações pontuais, mas à uma mudança de estrutura geral, nas formas de produção e consumo.

Mas, antes disso, vamos falar sobre a coleção, que já está disponível nas lojas:

Com a escolha de matérias-primas mais sustentáveis, a marca diz que busca reduzir o impacto ambiental e proteger a biodiversidade. Os materiais escolhidos foram:

> Algodão Orgânico: o algodão é a fibra mais produzida no mundo e também a que mais polui, e, segundo o site da marca, é o material mais utilizado nas criações da rede Zara. Se o cultivo do algodão tradicional é feito com uso intenso de água e agrotóxicos, degrada a fertilidade da terra, contamina aquíferos, causa danos à biodiversidade local e sérios problemas de saúde em agricultores e tem muitos problemas de trabalho infantil e exploração de mão-de-obra, o algodão orgânico é exatamente o contrário: ele é produzido sem o uso de agrotóxicos ou semente geneticamente modificadas, preserva o solo e minimiza os riscos para a saúde dos agricultores. No site conta que a marca está trabalhando em parceria com a BCI (Better Cotton Iniciative) uma organização que tem como objetivo melhorar o impacto do cultivo do algodão proporcionando formação aos agricultores.(1)

> Tencel®: é o nome registrado para as fibras de Lyocell — são fibras fabricadas de celulose regenerada de polpa de madeira. Na sua fabricação a celulose em estado bruto é dissolvida diretamente em um solvente de óxido de amônia, sem a necessidade de ser primeiro convertida em um componente intermediário — o que reduz muito a poluição da água e do ar. A solução celulose/solvente é então extrusada para formar as fibras, e o solvente é extraído quando elas são lavadas. Nesse processo, mais de 99,5% do solvente é recuperado, purificado e reutilizado, e uma vez que o óxido de amônia é atóxico, o pouco que resta de efluentes é considerado inofensivo. Além disso, a celulose é proveniente de florestas certificadas, onde as árvores são cultivadas de forma controlada e com programas que garantem o reflorestamento. (2)

> Tecidos reciclados: a coleção é produzida com três tipos de tecidos reciclados:

Refibra® Lyocell: A Refibra® é uma fibra criada a partir de algodão reciclado e Tencel® em colaboração com a empresa Lenzing. Para a produção dessa fibra, a Zara entrega os resíduos têxteis das fábricas e a Lenzing transforma em novas fibras. Segundo o site da Zara, é resíduo transformado em recurso e produzido da mesma forma que o Tencel®, seguindo os mesmos padrões de exigência.

Poliéster Reciclado: O poliéster reciclado se produz a partir de garrafas pet usadas para ajudar a reduzir o resíduo plástico e dar nova vida a esse material. Aqui vale lembrar que 70% do pet produzido já é utilizado na indústria têxtil e somente 30% para a produção das fatídicas garrafas.

Tecido reciclado convencional: O tecido reciclado convencional é quando se tritura o resíduo têxtil e o mistura com fibras novas para criar novos tecidos. Aqui vale lembrar que essa reciclagem de tecidos não é tão simples assim e só pode ser feita com tecidos 100% de determinado material (exemplo: 100% algodão/100% lã)- por isso quase sempre os tecidos reciclados são feitos a partir da sobra do corte das fábricas. Reciclar roupas usadas é bem complicado com a nossa tecnologia atual, visto que os tecidos são em sua maioria mistos e muitas roupas nem têm mais etiqueta de composição. E só fazendo um parênteses — a varejista concorrente, H&M já fez uma campanha para recolher roupas usadas para serem recicladas — a meta era arrecadar 1000 toneladas de roupas que seriam recicladas, quantidade essa que demoraria 12 anos para ser reciclada com a nossa tecnologia atual e que é a quantidade que a H&M coloca em suas lojas em 48h.

> Outras ações dessa coleção:

  • A Zara está utilizando embalagens com certificação FSC (Forest Stewardship Council), norma internacional PEFC ou outra norma equivalente que promova práticas sustentáveis nas florestas do mundo. As caixas de papelão que são usadas na distribuição entre lojas e fornecedores são reutilizadas e então recicladas e viram caixas novamente para as vendas online — segundo a Zara, 56% dos pedidos já viajam em caixas recicladas.
  • Recolhimento de roupas: como parte do compromisso social e ambiental, a Zara está na busca por ajudar os clientes a estenderem a vida útil de suas roupas de maneira mais fácil. Você pode deixar a sua roupa usada em um dos mais de 300 pontos de recebimento — por enquanto só na Espanha, Portugual, Reino Unido e algumas lojas na China, Irlanda, Holanda, Suécia e Dinamarca — essas roupas são entregues à Cáritas, Cruz Vermelha, CEPF e Oxfam, que dão o destino mais adequado para a roupa.

Porque o Fast-fashion não pode ser sustentável?

Vamos começar falando de alguns dados da indústria do Fast-fashion e da própria Zara: ao todo, são produzidas por ano, em média, 80 bilhões de peças no mundo. A Zara tem 7,240 lojas em 18 países, produz 11 mil modelos de roupas por ano e tem faturamento de € 15 milhões. Seu dono é o segundo homem mais rico do mundo.

O Fast-fashion baseia-se no tripé ‘baixo custo de produção, rápido escoamento dos produtos e preços atrativos’ — o que torna seu modelo de negócios nada sustentável: para ter baixo custo de produção são contratadas fábricas em países pobres como Índia, Bangladesh e China, onde há práticas de trabalho escravo; para o rápido escoamento da produção produz-se muito, há lançamento de muitas coleções e peças novas todas as semanas nas lojas; e preços atrativos incentivam as pessoas a comprarem muito mais do que realmente precisam e descartarem as roupas com muito mais facilidade já que não houve grande investimento ou conexão com quem criou ou fez.

Então aqui entra a pergunta pra gente refletir: de que adianta criar uma coleção com materiais sustentáveis se ela vai continuar sendo produzida, vendida e comprada do mesmo jeito? Quantas peças, das milhões produzidas pela Zara, serão feitas com materiais responsáveis?

Chamar de moda sustentável uma coleção produzida com materiais ecologicamente corretos é muito raso e está longe do que o conceito de sustentabilidade abrange, que é equilíbrio econômico, social e ambiental (conceito esse que também devemos repensar, mas isso é papo pra outro texto).

“Produzir roupas com fibra de menor impacto ou melhores condições de trabalho, embora importante, muda muito pouco o sistema geral, pois essas fibras e peças ‘melhores’ são transformadas nos mesmos tipos de vestuário, vendidas pelos mesmos varejistas e então vestidas e lavadas da mesma forma que antes” — Livro Moda e Sustentabilidade, Design para Mudança (2)

Mão-de-obra escrava em roupas ecologicamente corretas?

A Zara foi autuada diversas vezes pela utilização de mão-de-obra análoga à escrava — homens, mulheres (em sua maioria) e crianças foram encontradas diversas vezes produzindo roupas da marca em condições degradantes: jornadas de mais de 12h de trabalho, condições precárias de segurança e higiene, pagamentos absurdamente baixos (em média 2 dólares por dia).

O grande problema da cadeia produtiva da moda são as terceirizações e quarteirizações: as grandes marcas contratam fábricas para produzir — geralmente em países pobres para diminuir custos — e essas fábricas sub contratam outras fábricas que também sub contratam outras fábricas ou profissionais autônomos. No final das contas, quem de fato produz ganha muito pouco e quem está no começo da cadeia — as grandes varejistas — lucram muito. Se um dos pilares do Fast-fashion é o baixo custo de produção, as marcas determinam os valores e as fábricas se sujeitam aos baixos pagamentos para não perder os pedidos.

Mais uma vez pra gente refletir: de que adianta vestir uma roupa feita com algodão orgânico e tecidos reciclados se ela foi produzida por uma pessoa em péssima condições de trabalho? Se o salário que ela recebe é tão baixo que não dá pra viver dignamente? Se ela está privada da sua liberdade?

Greenwashing ou vontade de mudar?

Estamos vivendo uma grande mudança por parte do consumidor: as pessoas estão ficando, aos poucos, mais preocupadas com o que vestem, o que comem, como se relacionam com os produtos. É um caminho sem volta e com certeza a Zara está ligada nesse movimento. A questão é que enquanto as grandes varejistas — e não falo aqui somente da Zara— não mudarem seus modelos de negócio, produzindo menos e com mais responsabilidade socioambiental como um todo e não somente em práticas isoladas, acho muito difícil que possam unir moda e sustentabilidade de forma genuína. Uma coleção de produtos sustentáveis não vai mudar o mundo, mas pelo menos é um começo.

Por hora, prefiro essa Zara que faz alguma coisa. Mas não dá pra parar nisso, no ‘menos pior’. E continuo não comprando lá.

E vale lembrar que a Zara não é uma questão isolada. Muitas outras marcas usam mão-de-obra escrava, produzem com materiais nocivos ao meio ambiente e colocam à venda produtos loucamente — não somente as Fast-fashion, mas marcas renomadas como Nike, Adidas e marcas de luxo.

Para finalizar, uma colocação importante de Kendra Pierre-Louis, do livro Greenwashed: Why We Can´t Buy Our Way To a Green Planet:

“Muitos de nós queremos acreditar desesperadamente que podemos comprar nosso caminho para a sustentabilidade. Nós gostamos de pensar isso porque é confortável pensar que podemos continuar vivendo da mesma maneira e que as estruturas definidas séculos atrás podem nos carregar para um futuro cada vez melhor. Entretanto, muitos desses produtos ‘verdes’ desmoronam sobre a luz de um exame mais minucioso, e evidências mostram que o passado não pode mais ser modelo para o nosso futuro. De frente com a realidade de que temos que mudar, obtemos conforto na noção de que alguém ou alguma coisa — o político certo, a corporação certa, a filantropia certa, a tecnologia certa, o produto certo — virá e consertará tudo”.

(1) Salcedo, Elena. Moda Ética para um futuro sustentável. GG Moda, 2014.

(2) Flether, Kate e Grose, Linda. Moda e Sustentabilidade, Design para Mudança. Senac São Paulo, 2011