#12 CAIXA DE SAPATO

Dezessete cartas. Quatorze bilhetes. Um porta-retrato. Três fotos do casal, uma só dela. Dois presentes. Incontáveis “te amo”. E coube tudo numa caixa de sapato. Engraçado que quando todas essas coisas estão fora da caixa, parecem ter um volume maior do realmente têm. A impressão é que elas não vão caber todas juntas lá dentro. Mas sim, cabem. Couberam. É verdade que no fim, quando estão todas dentro, você tem um certo trabalho pra fechar a caixa. As palavras das cartas se abarrotam e parecem querer pular pra fora, assim como os sorrisos das fotos. Os “te amo” gritam, mas silenciam quando a tampa vai por cima deles. É um ritual irreversível. Uma vez fechada, ela não será mais aberta nunca. Metaforicamente e não-metaforicamente falando. O único destino possível é o lixo da esquina, a não ser que você queira conservá-la em um lugar da casa que não possa ver, o que não é aconselhável, pois você sempre saberá que ela estará lá. Embora o lixo pareça — e é — um desfecho melancólico para anos de sentimentos materializados, nada serve melhor quando o assunto é se livrar do que não te serve mais. Depois de coletada, a caixa irá para o mesmo lugar de outras coisas sem utilidade, que outras pessoas jogaram fora. E é exatamente lá que ela deve estar. Palavras, sorrisos, “te amo”, viram só memória, até o momento que você se livra também da caixa que vive dentro de você.

    Divina Comédia Humana

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    Histórias para rir, se emocionar ou não sentir absolutamente nada.