Estou sentada na escada de casa, esperando dar a hora de fazer uma ligação, enquanto minha mãe ouve Joni Mitchell e eu estou pensando em você. Quantos anos luz são necessários para fazer o eco de um perda parar de doer? Já perdi a conta de quantas vezes tentei voltar na tentativa de desvencilhar nossos destinos. Na malha do tempo e espaço, qualquer passo que dou é em direção a você. O que em todos esses últimos dias eu tive vontade de te dizer, mas não disse, era que, olha, da minha parte, nunca pareceu ser errado. Às vezes você me atinge em cheio, inesperado como uma daquelas tempestades de verão. Eu queria ter o mesmo preparo que os vendedores ambulantes com seus guardas-chuvas a dez reais sempre prontos e a postos nas portas do metrô. Mas não, não existe preparo.
Parece que somos interligados pelo fio condutor da alma, das coisas, da saudade que foi deixada. É como se fôssemos um só, como se cada um de nós fôssemos responsáveis por respirar uma célula do corpo. Conheci gente de toda forma e a tua forma me faz sentir quase humana. Foram sete luas e em uma delas, descobri que quero ler Machado de novo, só pra ter certeza da dúvida: tu serás feliz, Bentinho (só queria que ele tivesse acrescentado: caso te permitas). Bento não foi feliz por medo, a gente sabe.
É por isso que eu venero você com todo meu coração. Tive aquela sensação meio mística de que te conhecia há tanto tempo. Quero estar errada, mas como boa obsessiva e apaixonada por contos de fada, quando tropeço em um sem querer sinto uma pontada de reconhecimento em algum lugar entre o peito e o estômago. “É um conto de fada.” penso, sob efeito daquela descarga de adrenalina que todo colecionador conhece bem. Mas qual? Que conto de fada é esse? É um formado por palavras que não podem ser ditas, mas que estão pedindo tanto e tão pouco em troca?
Na física quântica do desamor universal, nossas possibilidades são duplamente negativas. De todas as ficções científicas previamente ditadas pela sua humanidade, a única que não foi premonição é o universo paralelo. Uma pena ter certeza de que não existe um nós dois em lugar algum. A certeza de que um eu é feliz por ter um você me confortaria. Se ao menos eu soubesse como voltar ao ponto exato no qual tudo se reúne de maneira errante. Nunca foi amor, sujeito masculino, entende? Nunca houve espaço e nem conhecimento. Era líquido, feito para não existir.
- Amanhã a gente vai ser muito feliz, eu prometo. Hoje não deu, eu sei, mas amanhã, eu juro, a gente vai ser muito feliz.
Essa história parece ser escrita a dedo na superfície úmida do espelho embaçado. Como se sabe, quando o espelho desembaça, a palavra continua ali, invisivel, até que alguém tome um novo banho quente, revelando a mensagem secreta. Mas quem irá decifrar?
São palavras suprimidas por mais palavras, palavras das quais a gente foge e sabemos lidar com a fuga, de maneira exemplar, isso é o resultado da ausência que carregamos por medo da própria ausência. Temos a certeza (mesmo que oculta) que aguentamos muito mais. Aguentamos pancadas diárias de realidade. Aguentamos o nunca mais. Aguentamos o fim. O que eu não descobri ainda é em que momento, como ou onde, saltarei no escuro sem ver a borda.
