A vitória de Crivella e o Fla-Flu político brasileiro

A vitória de Marcelo Crivella em domingo último mostra como parte do eleitorado ainda acredita na lógica do Fla-Flu, muito presente nos dias atuais, dentro da política.

As inúmeras mensagens que recebi no whatsapp, tenho certeza que não foi só eu, e as centenas de memes na Internet com os termos “Xoura, Freixada”, “Aqui não é lugar de maconheiro” ou o “Rio não vai virar uma zona” evidencia como essas pessoas acreditam na lógica de vitoriosos e derrotados quando todos estão no mesmo barco, já que o eleito irá governar para todos.

Troca-se o debate de ideias por todo tipo de zuera. E quem respondê-las de alguma forma está de mimimi ou fazendo chororô. Transformam o dia após as eleições em um dia após a rodada de clássico, como se a política se resumisse a lógica do perdeu-ganhou no dia das eleições.

Pois bem, se é para comparar futebol à política fazê-lo-emos.

A candidatura de Freixo é como um time treinado por Pepe Guardiola. Bebeu da água de muitos filósofos do futebol para se chegar a uma melhor forma de jogar. Assim como nos times de Pepe ou no carrossel holandês, o espírito coletivo vale mais dos que as individualidades de cada jogador.

Todos tem uma função pré-estabelecida para que a transição defesa-ataque seja feita da melhor forma possível. Por menor que seja a ação de um, este não é menosprezado, pois ela é parte daquela engrenagem para que o jogo funcione. Não há hierarquia de função, não existe um melhor ou superior ao outro.

Esse tipo de time é marcado pela ousadia na busca pela perfeição e de um modelo de jogo único que preza pela beleza, ao invés, de resultados. Muitas vezes, esse modelo não é vitorioso, mas a capacidade de ousar, de fazer diferente é o que conta. Muitas vezes, o treinador ouve os seus jogadores para saber a visão de futebol do seu time em busca da melhora.

Crivella apresentou a candidatura de um time treinado por Luxemburgo, Felipão e afins. Traveste-se de novo aquilo que é velho, aquelas velhas práticas usadas por todo mundo, mas que não chegam a lugar algum.

Normalmente esses times são treinados pela lógica do medo. Ameaças de aumento da concentração ou do cancelamento de folgas acontecem caso as vitórias de fim de semana não venham. Arautos da sabedoria do futebol, muitas vezes, eles humilham e até xingam seus pupilos nos treinos durante a semana, mas tudo isso em nome do projeto ou do bom futebol.

O jogo coletivo é deixado de lado para que um só craque brilhe. É escolhido um Messias que vai livrar o time do vexame ou dar a tão sonhada vitória. A individualidade é colocada acima da equipe.

Muitas vezes, essa segunda forma de jogar de futebol alcança os resultados de a maneira mais rápida, mas ao primeiro time cabe o lugar na história pela capacidade de mudar e ousar.

Texto escrito em 04/11/2016 após a vitória de Marcelo Crivella nas eleições municipais do Rio