Vamos começar pelo pé ou pela cabeça?

Dezessete dias.

Há dezessete dias não posso encostar o pé esquerdo no chão por causa de uma fratura trimaleolar no tornozelo que resultou em cirurgia, pinos e placa. Mas isso eu explico depois.

Esse primeiro texto é sobre a cabeça, não sobre o pé. É para explicar que o motivo de começar esse blog é justamente não perdê-la.

Fiz a cirurgia há seis dias e não poderei encostar o pé no chão por mais dois meses. Tudo dói. Dói bastante. Mas a dor nos ossos, nos pontos, nos músculos e na pele (que ainda está cheia de hematomas) foi ficando pequena quando eu comecei a me dar conta de que serão dois meses presa à cama, ao sofá e à cadeira de rodas. Dois meses completamente dependente de outras pessoas. E, depois desses dois meses, virão mais dois meses de recuperação para que eu reaprenda a andar.

São quatro meses sem andar sozinha. QUATRO MESES.

Eu tinha viagens agendadas, projetos em andamento, planos de trabalho e uma especialização em outro Estado… Toda uma programação suspensa pelos próximos quatro meses, no mínimo.

Eu tenho um apartamento com um gato e um cachorro para onde eu não posso voltar porque ainda não posso subir escadas.

Eu tenho mil livros que poderia ler neste momento, mas a codeína não deixa.

E, o pior de tudo, eu preciso de ajuda até para fazer um simples xixi. E você pode achar o xixi uma bobagem, mas ele deu origem a esse blog.

Quatro dias atrás, no dia que voltei do hospital, eu precisava fazer xixi e tentei chegar ao banheiro (com ajuda, claro), mas a cadeira de rodas não queria passar na curva do quarto.

Então eu tive um mini surto.

Comecei a chorar, soluçar e gritar que eu só queria ir ao banheiro. Tudo o que eu queria era fazer xixi.

Foi aí, depois de assustar a família inteira como o mini surto do xixi, que eu me dei conta de que precisava, acima de tudo, cuidar da cabeça. Ou não conseguiria passar pelos próximos quatro meses.

E é por isso que hoje começo esse blog. Para falar de tudo e de nada. Talvez ele nem seja lido por ninguém, mas vai manter minha mente ocupada (e sã, assim espero).