é um úlcera crônica

tomando o corpo

de forma nervosa

corroendo o estômago

um pesadelo vívido

igual o imperdoável

sol da tarde que

invade o quarto

através da janela entreaberta

e faz músicas melosas

tocadas em soslaio

parecerem felizes

quando tudo é incerto

aumentando mais ainda

a raiva de permanecer

na dúvida

ou o

medo de sentir dor

é vacilo ao falar

quatro palavras

trôpegas

enquanto a trêmula mão

resolve fazer acenos involuntários

em sinais de socorro

tendo consciência

que ninguém virá

para ajudar

pois

o vilão e o mocinho

da história

habitam o mesmo inevitável corpo

a visão de morte

de algo que já estava pútrido

é abraço sem consolo

mesmo quando a

intenção era calar o choro

inexistente incitado

pelo rompimento

pois ainda não se

descobriu uma maneira

de se perder sorrindo

é uma dose de cachaça

rasgando o peito

no meio dos brincantes

do carnaval benfiquense

e a ressaca da quarta de cinzas

é loucura abençoada pela lucidez