Notas sobre ele.

1: Ele nunca vai ler esse texto.
Fazem dois anos, na verdade, desde que eu escrevi a primeira versão do quer que seja isso — talvez uma carta aberta. Vai dizer, um tempão né?
Tempo suficiente para superar o que tinha passado no meu coração. Errado. Talvez seja esse o motivo que tenha feito eu tirar da gaveta essas palavras.
Então pega uma bebida quente e senta ai, tem coisas que eu preciso contar e é bem bonito para ficar guardado.
2: Somos amigos agora.
E seguimos caminhos diferentes, afinal, é a ordem natural das coisas. Nesse meio tempo nos relacionamos com outras pessoas, formamos, estudamos em áreas diferentes e voltamos a manter contato. Algo que não teria passado na cabeça desta pessoa aqui.
Afinal, com dezoito anos a gente quer viver tudo fervorosamente e se não der certo é uma grande decepção — o lance da borboleta no estômago era real.
Só que daí vocês devem estar se perguntando, como assim amigos? é isso mesmo. O tempo se encarregou das coisas e eu percebi que mantê-lo por perto ainda era melhor que nada — mesmo quando muitas pessoas me dizem o contrário.
3: Eu vivo dizendo que superei, mas é mentira.
E eu tentei muito. Só que somos complicados e enrolados.
Os anos de prática me ensinaram que com ele vai ser sempre essa dúvida, as poucas palavras e nossas conversas intermináveis sobre futebol. Sim, eu deveria contar, mas eu já disse que é complicado?
4: Ele tem um fuso horário só dele.
Acostume-se, ele responde horas depois — às vezes, tem mensagens que chegam no outro dia. Não é charme, tem pessoas que só moram longe mesmo e um dia vou perguntar se o sinal da internet é diferente.
Viu, tem coisas que só a convivência explica.
5: Achei que adorasse monólogos, mas é só distraído mesmo.
Só conhecendo para entender. Aliás, deve me achar uma maluca por estar escrevendo esse texto.
6: Ele me trava.
Dá para notar, não é mesmo? Quem em sã consciência se mantem apaixonada por tanto tempo assim?
Eu devia era dar a cara a tapa e correr o risco o quanto antes. Sei lá, tirar o band-aid. O problema é que ele me trava, exatamente quando eu penso em digitar tudo isso no whatsapp.
7: Tem um texto só dele.
Que privilegiado!
Logo o garoto que faz aniversário um dia antes do meu, torce para o Real Madrid, segue as minhas dicas furadas no cartola, sabe meus jogadores fixos e adora o emoji que chora de rir.
8: É bem provável que não conheça esse lado da história.
E essa é a principal diferença entre o que foi escrito há dois anos atrás e agora: ele ainda não sabe disso tudo.
Não temos mais os 15 minutos de intervalo de antigamente e nem a coragem e o pique daquela idade — talvez só para um futebol. Porém, a maturidade me ensinou que existem sentimentos que não precisam ser medidos e saber esperar o tempo das coisas e das pessoas é essencial — independente se isso for bom ou não.
Os desfechos que eu já imaginei nessa história foram os mais diversos. Só que eu continuo medrosa e tudo bem.
Até o dia em que esse contexto mude, escrevi oito notas mostrando o quão receptivo é o espaço que ele tem aqui dentro — prometo que não vou apagar.
