Minhas emoções hoje implodiram, sem que eu pudesse controlar e na verdade nem quis nem nada fiz para impedir que elas enfim rompessem o tabu que as abortavam antes mesmo que pudessem nasce-las e por medo da face que elas pudessem revelar eu adiei e interrompi tantas vezes esse fenômeno, mas hoje não, hoje eu deixei que elas falassem a mim e por mim e agora escrevo o possível exprimível.
Aprendi essa semana que a bondade além de virtude é fonte de saúde mental, não foi uma surpresa pra mim que tanto problematizei o problema do mal no mundo em filosofia geral e a benevolência de Aristoteles em filosofia antiga, mas mais do que reveladora a notícia sobre a relação da bondade com a saúde mental foi um alívio pra mim, pensei que talvez fosse mais um sintoma de que está tudo bem comigo e estou percorrendo a rota certa que destine ao ordenamento da minha vida, mas logo eu? Quem eu quero enganar? Uma cética, simpatizante da filosofia de precisão, que nega o materialismo, o ordenamento, o saber absoluto, eu que sempre estive inserida em confusão e não poderia ser diferente, a confusão me integra, é parte de mim, o caos me persegue, não sei se nutre uma paixão platônica pela minha existência ou um ódio gratuito mas ele me atinge, me aflige, rompe as fronteiras da vida que eu tento escrever e bagunça tudo, mas cada vez que ele bagunça eu preciso arrumar tudo de novo, e nesse exercício de re-organização eu sempre troco tudo de lugar, às vezes porque quero, às vezes involuntariamente, às vezes por que me esqueço onde estavam certas coisas antes, e então eu sempre me altero como uma substância manipulada em laboratório e assim multifacetada às vezes sirvo de remédio para males diversos que acometem a vida de quem quer que cruze comigo, me encontre, me conheça, dialogue, ou só me observe.
Mas quem ou o que forma a medicação pros efeitos colaterais da bagunça que o caos existencial criou em mim? Se agora estou aqui sozinha, minha única relação é com o teclado do smartphone onde digito esse desabafo nas notas de um dispositivo que registra um reflexo de mim mesma numa plataforma que é minha continuidade, essas palavras, uma extensão virtualizada de um eu que grita em uma alma bagunçada.
