Discutindo o 25 de julho: Lisiane Lemos

N a noite de 24 de julho, véspera do Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, última palestrante a discursar no Auditório da Faculdade de Direito da UFPel foi Lisiane Lemos, que mesmo não tendo feito sua carreira no mundo acadêmico como as outras oradoras que a precederam, discorreu com incrível desenvoltura e bom-humor sobre a sua trajetória de vida e as lições que a formaram como profissional.

S endo já formada em Direito pela Universidade Federal de Pelotas e atualmente uma executiva de serviços da Microsoft, o que mais cativa em Lisiane é o seu desejo de não só desbravar caminhos no mundo corporativo, mas também de se certificar que estes caminhos estarão disponíveis para muitos outros que vierem depois dela.

I nsatisfeita com o status quo, sempre se vendo sendo uma das poucas negras em vários de seus ambientes, fossem estes escolares, universitários ou empresariais, Lisiane buscou mudar aquela situação inaceitável por dentro. Já tendo se envolvido com o grupo “Blacks at Microsoft” no seu local de trabalho, ela co-fundou à Rede de Profissionais Negros após se deparar por demasiado com conferências de negócios onde só se viam um ou dois rostos semelhantes ao seu na multidão. Logo, objetivou realizar o tão essencial networking entre os mais capacitados profissionais negros do país, acabando com o mito de que estes eram escassos no mercado. Agora, com uma maior visibilidade, muitos trabalhadores aplicados tem a oportunidade de crescer ainda mais.

Lisiane explica que, embora exista uma maior receptividade e um desejo de mudança teórico por parte das grandes corporações, efetivamente realizar estas mudanças tão necessárias é algo que poucos indivíduos não-negros em posição de poder se importam em fazer. Logo, as quebras de paradigma devem vir daqueles profissionais negros que já conseguiram se estabelecer.

C omo ilustrado antes, para ela o passo inicial mais importante é ter jovens profissionais negros capacitados ocupando posições nas mais diversas áreas empresariais, começando, nem que seja, por apenas uma vaga. Porém, não basta somente preencher espaços vazios; estes indivíduos precisam fazer parte da vida destas organizações, em posições de gerência, onde podem servir como pontos de referência para outros funcionários, sejam eles negros ou não.

A o relatar as suas experiências com o projeto “Mulheres do Brasil” fundado pela empresária Luiza Trajano, Lisiane deixou clara a importância crucial da mulher negra na intersecção entre os movimentos negro e feminista ao apontar a ausência delas neste seleto grupo criado com o desejo melhorar o país. Como ilustrou em seu discurso, é impossível falar de feminismo sem falar de raça; sem falar das violências sofridas pelas mulheres negras; sem falar da quase absoluta impossibilidade de uma obter um cargo executivo ou sequer adentrar o mundo corporativo.

Fernanda Oliveira, Winnie Bueno, Lisiane Lemos e Rosemar Lemos

D esta forma, para que as mulheres possam alcançar os objetivos por elas almejados é imprescindível que todas progridam juntas, sem jamais tolerar que mulheres negras bem-sucedidas sejam uma mera “exceção”, ou talvez uma prova contundente de que o mesmo caminho é alcançável para qualquer uma. O caminho na verdade é tortuoso e imensuravelmente desafiador, afirma Lisiane, sendo necessário que todas as mulheres negras confrontem e questionem as situações inadequadas até mesmo (e principalmente) quando não for agradável ou fácil; que busquem recrutar à causa pessoas negras e não-negras, ensinando-as através da empatia a conquistar juntos os espaços que devem ser de todos.

Quando questionada sobre como o exemplo de sua mãe, a professora doutora (e uma das organizadoras do evento) Rosemar Gomes Lemos a influenciou para seguir pelo caminho do ativismo, Lisiane afirmou que a mãe sempre foi uma força encorajadora e amparadora no seu crescimento, da mesma forma como muitas das pessoas presentes na palestra foram. “Durante vários episódios que ocorreram dentro da universidade, contar com o apoio dela foi muito importante pra fase de militância. E é importante ainda hoje, uma vez que ela estando no mundo acadêmico enquanto eu estou no mundo corporativo, é essencial ter essa rede de pessoas que me dão apoio e argumentos pra seguir na luta. A construção dessas redes de apoio é importantíssima pra forma como nós nos entendemos como movimento”.

Fotos cortesia de Priscila Lampazzi e Renan Lemos, membros do grupo DEA — Design, Escola e Arte — UFPel.