
Hoje encontrei uma vida minha que ainda não vivi
Encontrei a loja mais preciosa de Palermo hoje. Passo sempre por aquela rua e nunca me atentei que em uma vitrine escondida existia uma vida minha que eu ainda não vivi.
Vi alguns cadernos feitos com folhas recicladas, limões siciliano e “Ricettacolo” escritos e decidi entrar. Cadernos são minha paixão. Esses eram feitos à mão, com folhas recicladas e lindos. Já tava ganho.
O ambiente era composto de duas salas que se conectavam. Logo na entrada, alguns produtos estendidos em mesas brancas feitas com cavaletes de forma bem rústica. O cheiro de tinta pairava no ar. Cadernos, envelopes, materiais feitos de concreto e algumas jóias. Cada um deles contava um pouco da história de Palermo.
Reconheci um papel com uma impressão de peixes, mas não sabia dizer de onde.
Depois me dei conta que esse papel rígido é onde alguns peixeiros colocam as sardinhas que compro para meus cachorros toda semana no Mercado Ballaró, o mais famoso da cidade. Também reconheci a impressão de “Qualità e Buon Gusto”, algumas impressões de legumes, papéis que já usei para embrulhar queijos frescos e meia dúzia de padronagens.
Usando de materiais comuns pelos mercados históricos de Palermo, tudo ali contava uma história da cidade que eu vivi pelos últimos cinco meses.

Os cadernos mesclavam folhas de seda com padronagens de pedras rosadas, usadas para proteger frutas, retângulos de cartolina, padronagens de peixes e legumes e folhas recicladas. Cada um deles tinha uma textura própria, abrindo espaço para que você contasse a sua própria história dentro da história de Palermo que era contada ali.
Eu poderia estar ali.
Hoje consegui ver uma vida que ainda não vivi dentro daquela loja.
Por um segundo, eu era aquela mulher.
Eu tinha um mezanino no fundo da segunda sala com dezenas de latinhas de tinta empilhadas. Alguns dias da semana eu pegava minha escada, subia ali e selecionava minhas cores favoritas para os próximos projetos.
Eu era ela, ali, fazendo carimbos com pedaços de ferro cheios de texturas, criando ítens de papelaria e me apaixonando por cada detalhe daquelas peças enquanto costurava mais um caderno na máquina de costura.
Eu juntava fragmentos que contavam a história de um lugar pelo qual eu me apaixonei — e fiquei.
A loja Edizione Precarie coloca em cada uma das suas peças os dizeres “fatto a mano, lentamente”. E eu acho que essa é a parte mais bonita desse trabalho inteiro.
Em uma vida que ainda não vivi, eu quero usar materiais que acendem sentimentos dentro de mim para criar com as mãos.
Lentamente.
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