Os 23 “nãos” que fizeram história

(Texto de 23 de setembro de 2014)

Ontem foi aniversário da Joan Jett. Pelo menos é o que minha timeline inundada de homenagens indicou. Queria ter escrito ontem, mas por motivos de força maior fui obrigada a matar uma garrafa de Jack Daniels antes. Acontece, prioridades.

Sempre amei Joan com todas minhas forças. Ainda que instintivamente, mesmo sem conhecer sua história, muito menos saber das Runaways, desde muito nova ficava hipnotizada com as capas de seus álbuns.

Aos 56 anos e ainda na ativa, Jett e sua história são inspiração certeira para toda garota que não aceita ficar presa no lugar comum. O ideal seria assistir (ME JULGUEM) ao (ME JULGUEM) brilhante (ME JULGUEM) filme das Runaways (ME JULGUEM). Esqueçam a má vontade coletiva da Kristen Stewart e da Dakota Fanning por um momento e vejam pelo menos o trailer.

As Runaways foram as primeiras garotas a fazer rock, e fizeram do único jeito que poderia ser feito: gritando I wanna be where the boys are. Na verdade foram a primeira banda de rock composta apenas por mulheres a ser mundialmente reconhecida. E esse é só o ponto de partida da nossa história.

Apesar da capa do primeiro disco, a base e a alma da banda está não na loirinha de vozeirão que grita “Cherrie Bomb” de lingerie em cima do palco, e sim na guitarrista, que largou o colégio aos 15 anos e se mandou para Los Angeles decidida a montar uma banda só de meninas.

Fã de glam rock, Lou Reed, David Bowie, Gary Glitter, Suzy Quatro, Chucky Berry e rock and roll, Joan queria tocar na guitarra as músicas que ouvia no rádio. Seu professor, aos 14 anos, dizia que isso não era para garotas e que ela deveria aprender a tocar folk no violão como as outras. Foi aí que abandonou o mestre (machista) e passou a aprender a tocar sozinha, virando noites e noites estudando no chão da cozinha.

No ano seguinte formava as Runaways, com mais 4 garotas de sua idade, com a ajuda do produtor / empresário Kim Fowley que ensinou táticas de guerra para sobreviverem nos palcos e enfrentarem o público e músicos extremamente machistas e hostis.

Alguns álbuns e perrengues depois, a banda se desfez por motivos de chiliques de Cherrie (acho ela uma farsa, desculpa) e Lita Ford (também não gosto dela, desculpa) que acabou virando uma respeitada guitarrista do heavy metal. Joan ainda conseguiu levar a banda pra frente até separarem-se definitivamente em 1979.

Foi aí que Jett decidiu seguir carreira solo e foi à luta. Seu primeiro disco foi rejeitado 23 (VINTE E TRÊS) vezes por todas as gravadoras possíveis. O que a bonita fez? Criou a Blackheart Records, sua própria gravadora para lançar e distribuir sua música, tornando-se a primeira mulher a possuir e dirigir uma gravadora.

Claro que ela faz questão de contar isso tudo no clipe de Bad Reputation.

E claro que seu álbum fez sucesso mundial, I Love Rock and Roll, continua um dos maiores hinos da música. Joan foi considerada uma das maiores guitarristas de todos os tempos (em uma lista onde aparecem apenas ela e outra mulher), é uma das mais respeitadas referências no rock por garotos e garotas, e está até hoje nos palcos fazendo o que sabe de melhor. Mostrar quem á a Queen of Noise de verdade.

E eu? Eu levei um sacode por causa de um trampo ontem e quase não levantei da cama. Tenho ainda muito o que aprender com essa mulher.


Originally published at confeitariamag.com.

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