Survive Yourself

Tem dia que ninguém segura essa centrífuga da disgrassa mental batendo forte na real life.

Golpe. Todo mundo fodido. Desonestidade intelectual. Escola anunciando vaga para professor de humanas que se enquadre nos requisitos ~sem partido~. Decidido que agora professores de ensino religioso podem promover suas crenças em escola pública. País que mais mata LGBT. Fãs de hellacopters aplaudindo matéria sobre coronel incitando ditadura e aquele deputado líder nas pesquisas que quer liberar porte de arma e não deve saber que gênero é até classificação musical.

Editorial de moda descolado romantizando mental issues com cupcakes de comprimidos. Sem $ pra comprar remédio. Se ficar sem tomar você sabe que vai ouvir do moço do SUS que está sendo irresponsável e não colaborando com o tratamento. Aquele que não é gratuito. Que nos artigos falam que é possível sim ter uma vida normal e até cura se ~vc cuidar direitinho~.

Coca-cola $11. Pessoas batendo boca nem sei mais há quanto tempo por causa de line-up de festival que todo mundo vai acabar indo ou assistindo pela TV. A pia está lotada de novo, com uma sujeira e péssimos hábitos que não são nem seus, paralizando qualquer possibilidade de tentar se virar. Tua cabeça decide que um jeito de não enlouquecer é comer como doida. Angústia de abrir e fechar armários e geladeiras vazios, lotados de coisas impossíveis. Discussão na timeline sobre congelar ou não ervas.

Trezentas mensagens no app verde. Vinte e um MIL emails somando todas as suas caixas, trazendo coisas que deviam te interessar. Pelo menos já largaram a ilusão que irei responder. Oportunidades, convites, chances, textos ótimos, e a certeza que você não conseguirá dar conta de nada.

Mil links. Medo de clicar em algum e ser um material tão ruim que irá causar até mal-estar. Trabalhe com que ama e seja emocionalmente afetado por absolutamente tudo que cruzar seu caminho. Débito automático de uma plataforma que nem escrevo mais caindo no $ que esqueci de resgatar do PayPal. O único dinheiro. Livros maravilhosos impossíveis de serem lidos, a única concentração que temos aqui é de poluição por metro quadrado.

Dar like num post sobre se propor a passar um mês sem reclamar e dois minutos depois abrir o computador pra escrever qualquer coisa que canalize esse bombardeio mental que não leva a nada. Limpezas compulsivas. Banhos que quase arrancam as tatuagens fora. Show do Cigarettes After Sex. A lembrança daquele que vc me deu. A cumplicidade de uma não fumante dividir um, just because. Tua expressão quando falei aquela frase de filme numa noite de cinema assim como as luzes do meu bairro.

Não gostou, dá unfollow. E se gostou? Cheap dramas como armas em guerrinhas de poder de relações que nem existem. Stalk. Indireta. Recebidos. Blogs e projetos paralisados por motivos de saúde. Você dá do bom e do melhor e um belo dia um órgão do teu corpo resolve quase te matar, derrubando todos os seus jobs e compromissos. Ter alta do hospital mas não da cirurgia. Não saber o que isso significa até o primeiro desmaio.

Prazos de coisas absurdamente simples, que eram seu sonho adolescente e outrora seriam feitos em minutos explodindo. Insônia. Ressaca de sono de remédio muscular. Pessoas reclamando quão horrível é a convivência com pacientes nos comentários de matérias que explicam que pessoas com esse CID precisam de amor, apoio e compreensão.

Mais congelada que os investimentos de saúde e educação. Pensar em tirar essa frase do texto ao lembrar que povo reaça justifica tudo quanto é merda nessa dobradinha. Sensação de febre. Angústia. Quadros e pôsters para pendurar. Falta de durex e certezas. Visão turva. Resolve chutar a temperatura a uns 39o e tomar um tapa na cara de 34o. Querer a cabeça de quem teve a ideia de usar a condição de “suar frio” como expressão banalizada.

Gata, pau no cu desse seu namorado/marido, eu não tenho nada a ver com os dois, para com esse stalk imbecil e se resolvam aí. Mensagens ~on hold~ pra responder em um momento em que você tenha saúde. Ficar ~on hold~ de mensagens que você também não responderia. Reclamar da lerdeza dos outros enquanto aprende a respeitar seu próprio tempo.

tempo.

Se torturando por ter se perdido com besteiras enquanto poderia saborear um momento que duraria pra sempre. Estar decidida a não ter a mais vaga ideia do que vai conseguir fazer ou não em seguida. Rezando por mais um dia em que seus olhos arderam com as janelas sendo abertas pela primeira vez em tempos. Tentar não ouvir opinião e julgamento de gente que nem sabe do que está falando. Não falar sobre isso. Deixar a falta de sentido flertar com a inércia.

Não se atrever a parar pra pensar. Fazer de conta que não foi com você. Evitar a melancolia bittersweet das situações impossíveis. Não se tem meio termo quando não se tem nada. Pesadelos sobre estar presa numa cama com insônia. Medo dos futuros textões de Twitter. Incapacidade de fazer uma entrega que te custariam meia dúzia de cliques.

Ser informada de que você vive em um mundo dentro da sua cabeça já que quando neném batiam boca demais na sua presença. Evitar todo e qualquer tipo de bate boca. Bater boca o dia inteiro sozinha, com você mesma. Valorizar a época em que você era jovem e menos machucada com as coisas.

Começar a sentir suas forças serem drenadas pelo próprio texto. Mesmo com tanta coisa a fazer, dizer, expressar. Olhar pro relógio e com medo de bater o olho na janela e se odiar por ter perdido mais um dia. Precisar de um doce. Resistir bravamente a tentação de não começar a temporada daquela série por saber que sua produtividade iria pro ralo. Se detestar durante a madrugada, acompanhada da insônia que dá palco aos seus 2 a.m. toughts, lembrando o quanto era produtiva. Não se perdoar por atitudes que seriam absolutamente compreensíveis na pele dos outros.

Ouvir que passou a tarde sem fazer nada quando sua cabeça já devorou tudo. Adiar aquela limpeza no armário. Pensar como esfaquear um travesseiro ajudaria nessas horas, mas lembrar o quanto isso pode depor contra você nos tribunais. Encontrar textos e composições espalhados em papéis de receita jogados por aí. Lembrar que viu dia desses um projeto de arte da mesma natureza, com a diferença que o que é conceito pra um filho dum caralho numa galeria, aqui é apenas mais um efeito colateral de ser um car crash. Sentir falta de quando tudo era apenas um accident waiting to happen.

Publicar um texto ruim denunciando sua total falta de controle sobre a vida para ter a sensação de que fez alguma coisa. Não revisá-lo para lembrar que na vida o que está feito, está feito e paciência.

Só não sei de quem.

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