Virando o disco do Vinyl

Ok, eu sei que é muito seis semanas atrás falar sobre a série Vinyl, e que todo mundo (ABSOLUTAMENTE TODO MUNDO) já deu seus 2 cents sobre a estreia da nova-série-produzida-em-parceria-entre-Mick-Jagger-e-Scorsese-que-aborda-o-mundo-da-música-dos-70s, e como está encerrada a temporada de resenhas sobre a trama que tem a remontagem dessa época como pano de fundo, que na verdade é pano protagonista, e já no primeiro capítulo teve sua segunda temporada anunciada.

Mas na verdade eu tenho um ponto aqui. Na verdade vários.

Começando pelas críticas da série (e não estou falando dos jornalistões que vão fazer análises sérias e profundas com algum sentido ponderado, tô falando de discussão e links que a gente cata por aí, que é where wild things are).

Alguém mencionou o lance da cena de abertura se passar em um show dos New York Dolls (!) ser longa demais (SER.LONGA.DEMAIS.). Nenhuma cena retratando um show dos Dolls com os vocais do próprio David Johansen pode ser longa demais, plmdds.

Na mesma semana seguinte apareceu o fucking Richard Hell (é daí que vem o Hell do meu nome) com um texto maravilhoso publicado pela Stereogum (sugiro fortemente a leitura) falando umas verdades de um jeito tão natural, espontâneo, com uma sinceridade impiedosa que faz você lembrar que “Mate-me Por Favor” é um livro sobre pessoas incríveis, e o título ser -inclusive- uma frase que Richard escreveu em uma de suas camisetas.

Na verdade ele tem os motivos dele, já que o personagem do filho do Mick Jagger é descaradamente ~inspirado~ em Richard, ao ponto da demo de sua banda ser apresentada na gravadora como uma mistura de (uma banda que eu não lembro o nome) e Neon Boys (a primeira banda de Richard, antes do Television). Ah, o visual também tem 01 referência.

É nessas horas que eu me pego pensando: trabalho incrível da equipe ao recriar a ~atmosfera, easter egg pra gente obcecada pelos 70s como eu, ou uma cara de pau desgraçada?

Depende de quem está assistindo.

Do alto do sexto capítulo muita coisa mudou e já dá pra gente esquecer o lado A, já que o primeiro capítulo, foi aquela coisa mainstream (VOU DAR SPOILER, FODA-SE): assassinato Scorsese, executivo do ramo musical decadente em crise de meia idade, casal muito rico em rehab com vida nova, ambiente e conversa chaaaaaata de gravadora que toca ABBA, e pinceladas da música *das ruas*. Você vai procurando “Mate-me Por Favor” e encontra uma mistura de “Quase Famosos” com “Cadillac Records” e um tiquinho de “Sid & Nancy” (tiquinho).

Agora no lado B, o personagem que a gente odeia está se fodendo e foi parar no submundo (que é onde a música legal sempre esteve), e consequentemente passamos mais tempo na Factory, no Chelsea Hotel, nos shows do Lou Reed, e cheio de (como disse anteriormente) easter eggs para quem é obcecado pela época, como por exemplo os personagens ouvindo o disco #1 do Big Star, que vendeu menos que 10 mil cópias na época, e hoje está na lista dos 500 melhores álbuns da lista da Rolling Stone.

Outra coisa muito legal é que -apesar da gente (eu) estar interessada na cena proto punk- a série está retratando também o surgimento do hip-hop, não ficando presa a um gênero. Eu sei que esse é um parágrafo esquizofrênico, mas sempre que você mostra o surgimento orgânico de uma cena musical nas ruas (antes dele ser empacotado em alguma gravadora), é algo que vale muito a pena de ser visto.

Indo pra parte desagradável porém necessária:

Não tem como não observar a forma que as mulheres são retratadas. Todo mundo sabe que o machismo no mundo da música é grotesco, especialmente naquela época, e é maravilhoso elas estarem em papéis decisivos na trama. Também acho mega importante esse tratamento ser mostrado pra geral ver como as coisas funcionavam. Mas mostrar é diferente de celebrar.

Em certas cenas e diálogos parece conter quase um certo prazer em colocar as mulheres em determinadas posições e isso me incomodou bastante. Aí vieram me avisar que esse é um lance típico do Scorsese (dsclp, sou uma Tarantino girl não sabia dessa fita), e ele tem dessas. Não sei se alguém aqui tá assistindo ou se acompanha a obra do diretor, se sim, miconta se tem a mesma impressão também.

Por fim, a fucking trilha sonora. Até agora temos cerca de 6h30 de série para 8h de soundtrack. Nunca fiz uma comparação dessas antes mas me parece algo bem acima da média. Ainda mais considerando uma trilha que vai de Nina Simone, passa por um rapper fazendo uma versão no piano para Life on Mars até Stooges e os rock clássico tudo. Acho algo bem razoável considerando o tanto que a série se promove em cima disso.

Sobre essa parte de artistas gravando versões especialmente para a série, PRECISAMOS FALAR URGENTEMENTE SOBRE JULIAN CASABLANCAS E SEUS COVERS DE VELVET UNDERGROUND:

O quanto isso está mais próximo do primeiro disco dos Strokes que os últimos discos do próprio Strokes?

(Volta pras origens, Julian!)

Ok, finalizando.

Aí que a HBO foi muito linda e criou um perfil no Spotify disponibilizando a cada capítulo as músicas que rolaram. Mas meio que miguelando, deixando umas 6 músicas por episódio. Aí um santo criou uma playlist com todas as músicas de verdade, as 8 horas, na ordem certa por episódio, e esse sim merece um prêmio.

E no final das contas (e olha que nem falei das maquilage, figurino, demo do guitarrista do Sonic Youth, etc), Vinyl é uma série que pode ser assistida de mil formas, mas boa parte de sua graça mora nos detalhes e merece ser assistida (e discutida) mais de uma vez.

E Julian, considera aí meu apelo, eu sei do que tô falando.


Originally published at blog.idealshop.com.br on March 24, 2016.

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