Bailinho

Com onze anos de idade minha arma preferida era um estilingue. Ele era elegante até, escavado com estilete na madeira escura em ípsilon, uma fita grossa de borracha preta atada nas duas pontas. Nunca apedrejei passarinho nem bicho nenhum, que pra isso não me vinha coragem; atirava pedra em galho de árvore longe, marca feita na parede, algum outro alvo improvisado.

Não que da minha infância se possa dizer que tenha sido uma sucessão idílica de aventuras rurais, como as que tantos ex-usuários de bodoques e atiradeiras nos relatam em verso, crônica, romance. Minha arma era apenas eventual, posta em uso quando a gente passava o domingo no sítio do meu vô.

De resto o que era a vida aos onze? Escola, lição de casa, Comandos em Ação, livros, tarde com os avós, fitas cassete dos Beatles e do Queen, videogame e piscina na casa de amigos, e às vezes alguma festa à noitinha, num salão de prédio, com refrigerante, cachorro-quente, um micro system tocando Madonna, nos lares mais sofisticados alguma novidade tecnológica como a lâmpada de luz negra ou aquela máquina de fazer fumaça enjoativa.

Já nessa idade eu me sentia desconfortável em festas. Meu desejo secreto era levar um livro pra ler, coisa que, aliás, cheguei a fazer quando era mais novo; mas com onze anos eu tinha noção de que isso me desmoralizaria completamente junto aos colegas, além de chamar a atenção — justamente o que eu não pretendia. O melhor era ficar na minha, trocar duas palavras com algum amigo que também tivesse aparecido e esperar a hora combinada para que meus pais me buscassem.

Mas antes tinha o bailinho. Podia ser o pedido explícito de alguém: “toca lenta!”. No mais das vezes era apenas um movimento silencioso e anônimo; de repente o salão se esvaziava, meninos se aglomeravam de um lado, meninas de outro, as batidas estacadas do som dançante substituídas pelos acordes melífluos, em piano sintetizado, da balada do momento — Eternal flame, das Bangles, ou Lost in your eyes, da adolescente Debbie Gibson.

Do outro lado do salão, as meninas trocavam sussurros e nos dirigiam olhares suspeitos. Do nosso lado eram risinhos nervosos entrecortando o repertório já típico da comunicação masculina — provocações, xingamentos, pequenos empurrões.

De minha parte eu tentava lidar com a situação como quem remove um esparadrapo. O melhor era atravessar a sala, convidar uma menina e ir logo para a pista, fingindo certa altivez estoica de soldado imaginário.

A garota de quem eu gostava — a quem eu nunca dissera nem bom dia — não estava lá; ela não frequentava festas ou outros convescotes terrenos. Sentava do outro lado da classe, tinha longos cabelos loiros, e, ao tocar o sinal do fim das aulas, evaporava rumo às mais altas esferas celestiais, pra na manhã seguinte condensar-se novamente, pubescente e inalcançável, na primeira fileira.

Durante a música, conforme estrita regra pessoal, a distância mínima entre a minha cintura e a da menina era de um palmo, o que obrigava-nos — ela especialmente — a apoiar-nos um no outro com os braços praticamente estendidos, como se uma terceira e invisível pessoa se interpusesse entre nós. Meu peso todo descia para os pés, e eu me movia com a dificuldade de um escafandrista que precisa vencer ao mesmo tempo o desconforto do traje e a enorme pressão submarina. Passo após passo seguíamos, ela não sei como, eu hirsuto, vagarento, os olhos alheios, o cenho indiferente às gozações que reverberavam nos ouvidos. Eu era muito sério, nessa idade.

Havia às vezes, também, a vassoura. Quem quisesse dançar com o par do outro poderia lhe oferecer uma vassoura (sim, uma vassoura de verdade, de piaçava mesmo) e tomar-lhe a menina; cabia então ao outro a cena ridícula de dançar com o utensílio, ou fazer o mesmo com um terceiro. Era uma prática que aproximava o bailinho do jogo do mico, pra ficar nos passatempos de então. Lembro que pelo menos uma vez vi-me sobrando com um cabo de madeira na mão, mas tenho certeza que nunca troquei vassoura por garota nenhuma. De repente a larguei num canto e fui tomar uma Coca-Cola; não sei, a verdade é que não me recordo.

Mais ou menos nessa época, vasculhando as estantes na casa do meu vô, descobri um livro fininho, a capa coberta por uma longa fila em ziguezague de simpáticos bichinhos — em primeiro lugar os porcos, seguidos por cavalos, bois, cachorros, galinhas etc. Apanhei-o para ler: era A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Terminei na mesma tarde. Uma porta se abrira, e eu sem perceber a tinha atravessado, pra não voltar mais.

(6/6/2013)