Na ponta da agulha

Meu filho ia nascer dali a algumas semanas, o que tornava o assunto mais urgente. Era preciso ser objetivo, aproveitar aquele período meio férias, meio entre trabalhos, pra arregaçar as mangas e me colocar de vez à caça. Antes que a rotina de fraldas, banhos, choros e funchicórias começasse de novo, inviabilizando meus planos.

Era também uma desculpa para ir ao centro. O que seria da vida paulistana sem as desculpas que inventamos, só para ter o prazer de ir ao centro da cidade.

Mas a Rua Santa Ifigênia foi uma decepção. Perambulando entre aquelas lojas de cabos e plugues, games, quinquilharias eletrônicas, eu era um peixe fora d’água. Não, não era ali que eu ia encontrar o que procurava.

Não era para ser tão complicado. Aliás, na minha cabeça, tudo parecia absolutamente simples, um conceito tão elementar como a própria água. Eu queria um sólido, honesto, confiável, se possível charmoso, toca-discos.

Não cheguei na vida a tempo de pegar a época áurea do vinil: quando comecei pra valer minha coleção de discos, lá pelos catorze anos, o CD já estava virando a única alternativa. Mas com doze, treze, eu ouvia cassetes e LPs, e tinha um toca-discos Gradiente no quarto. Além de bolachas da coleção dos meus pais — Abbey Road, McCartney I, Mamas and the Papas — eu tinha lá meia dúzia dos meus. Dire Straits. The Police. Roy Orbison. Até que alguém me emprestou um vinil do Nevermind, do Nirvana. Nunca vou esquecer a sensação de ouvir a linha de baixo de Breed demolindo as paredes da minha casa.

Havia, sim, aquele dia na Santa Ifigênia, alguns novíssimos turntables: horrendas e brilhantes armaduras de plástico, feitas na China, certamente, e desenhadas para impressionar moleques metidos a ser DJs. Não era bem o que eu tinha em mente.

Eu não sabia, mas estava na rua errada. Pois quiseram os deuses da Pauliceia dispor as velharias — ou os equipamentos vintage, como queiram — não na badalada Santa Ifigênia, mas na sua colega menos famosa, a Rua dos Andradas. A paralela de baixo.

Para a mulher, a maturidade é algo natural; um papel que ela assume sem esforço, pois foi feita pra ele. Já o homem é diferente. Nenhum homem supera completamente o fato de que não tem mais treze anos. É por isso que temos que manter, protegidos, preservados, sob vigilância, como uma ilha eternamente ameaçada de invasão, esses pedaços de vida tão próprios à identidade masculina, e tão incompreensíveis para namoradas e esposas. O PlayStation, a Hasselblad médio formato, a Fender Stratocaster igual à do SRV; a vara de pescar, o Fusca ’68, a Kawasaki Ninja 300; a coleção de latas de cerveja, de times de futebol de botão, de bonecos do Star Wars ou da revista Mad. São nossos brinquedos de adulto. Mulheres, por favor, cuidado, ao mexer com eles.

Rua dos Andradas. Lá estavam eles: velhos Technics, Gradientes, Philips, empilhados em prateleiras de metal, pendurados sobre antigos receivers, amplificadores e prés, atravessados entre caixas de som. Todo um arsenal de potência e precisão sonora, galeria de titãs que um dia reinaram soberanos em amplas salas de estar da elite paulistana. Ali eram apenas tristes, quietos, bando de velhinhos esquecidos num asilo mequetrefe qualquer.

Um dos meus filmes favoritos é Christine — o carro assassino. É a história um rapaz que compra um carro antigo. Não qualquer carro antigo, note-se; um belíssimo Plymouth Fury 1957, vermelho radiante. O problema é que o carro — nome de batismo Christine — começa a ter ciúme das namoradas do cara e… bem, resolve matá-las. Insisto: essa história de brinquedo de adulto, é mais séria do que parece.

Não foi na Rua dos Andradas que achei meu brinquedo. Na realidade, saí meio desgostoso com o estado da maioria das coisas por lá; tudo meio amontoado, empoeirado.

Foi passando aqui perto de casa pela Antônio Bicudo, indo ou voltando do almoço. Uma loja limpa, quieta, pequena, azul. Sobre a bancada, toca-discos enfileirados, respeitosamente, quase como as peças de museu que, afinal, não deixam de ser.

Reza a bíblia dos hipsters setentistas, Zen e a arte de manutenção de motocicletas, que há dois tipos de pessoas, no que se refere à relação com a tecnologia. Os clássicos, que obtém prazer e satisfação em saber como máquinas funcionam e adoram manipular e conhecer suas peças e engrenagens; e os românticos, que fogem dessas coisas como o diabo da cruz.

Nesse aspecto, e possivelmente só nesse, sou um romântico. Por mais que me expliquem, não sei bem o que faz um carro andar. Não sei consertar direito nem bicicleta. E para mim é nada menos que um milagre que uma agulha, passando por sulcos escavados numa superfície de vinil, bote os Beatles tocando Come Together na minha sala.

De forma que não sei se o Pioneer PL-55X é um toca-discos médio, ruim ou excelente. Não faço ideia de qual é o modelo da sua agulha. Não sei que tipo de coisa acontece dentro dele. Sei que quando vi seu acabamento de madeira, sua tampa escura, seu braço cromado, eu não tinha mais dúvidas. Minha procura tinha acabado.

Mas não se compra um toca-discos sem ter onde plugá-lo, e eu saí da loja carregando também um pesadíssimo receiver Yamaha, cuja potência desconfio que seria suficiente para preencher todo o Vale do Anhangabaú.

Dizem que num casamento não se deve ter segredos, o que é uma puríssima verdade. Mas eu ainda não tinha as caixas de som, nem mesmo uma forma decente de apoiar toda aquela (ainda incompleta) parafernália. De forma que toca-discos e receiver foram parar num recôndito espaço do armário fechado do escritório, enquanto eu encomendava um par de caixas e um pequeno móvel (com espaço para guardar discos) pela internet.

Não preciso descrever o olhar de reprovação da minha mulher, quando se deparou com aquilo (o esconderijo não durou muito). Era talvez o olhar de quem, pensando nos meus dois mil e quinhentos CDs, multiplicava o número pelo espaço ocupado por um disco de vinil.

Mas se a história da humanidade nos ensina alguma coisa, é o poder dos fatos consumados. E uma gestante de mais de trinta semanas tem mais com o que se preocupar do que as idiossincrasias sonoro-eletrônicas do marido.

Em pouco tempo tudo estava no lugar. Sobre o simpático móvel de madeira, que, num momento de suspensão da descrença, consegui montar, equilibravam-se, algo incoerentemente: o receiver preto, que naquele contexto era o próprio jipe Hummer da mobília doméstica; um DVD player comprado no Mercado Livre, capaz de tocar CDs e também SACDs (espécie de CD com mais qualidade de som, enfim, não compensa explicar aqui); e finalmente, no topo da pilha, a razão de ser de tudo aquilo. O toca-discos.

Dois anos e meio depois, essa tralha toda continua na minha sala. Muito menos usada do que poderia, naturalmente, numa casa com duas crianças, em que o espaço sonoro está quase ininterruptamente tomado por Mister Makers, Galinhas Pintadinhas, Palavras Cantadas.

Há outra razão. Como se sabe, ser pai de crianças pequenas é aprender a dar valor a outras coisas na vida. Entre elas, o silêncio. Que coisa sublime, o som inaudível que fazem as crianças dormindo. Impossível, numa hora dessas, pensar em ouvir música, em arruinar tão provisória paz.

Olho de novo para o conjunto todo. Mais do que qualquer coisa, ele me parece hoje, na sua empilhada desordem, um totem; quem sabe um monumento selvagem, homenagem pagã a tecnologias mortas. Falando nisso, esqueci de comentar que, como o DVD é menor que o toca-discos logo acima dele, tive que enfiar umas fitas VHS atrás, de forma a sustentar satisfatoriamente a vitrola.

Penso nos LPs que juntei nesses meses. The Electric Prunes. Deodato. Mulatu Astatke. Them. Curtis Jones. Keith Jarrett. The Tokens. Joe Strummer & the Mescaleros. J.J. Cale. George Harrison. The Hot Rats. Taj Mahal. A Reggae Interpretation of A Kind of Blue. Mose Allison.

Pode ser que jamais na vida eu volte a ouvir um ou mais deles. Alguns, nunca ouvi inteiros. Mas sinto a sua presença sólida, concreta, aqui, na minha sala, com suas capas duplas, seus envelopes plásticos, dentro deles os discos, negros, calados, ogivas sonoras prontas a irromper a qualquer segundo. Sinto o ar impregnado do seu magnetismo, numa sensação que me excita e conforta ao mesmo tempo. Sorrio de satisfação. E, feliz com o meu brinquedo, vou dormir.

(8/8/2013)