Omeletes
Quando eu morava sozinho, meus jantares se dividiam quase que exclusivamente em dois tipos: delivery e omeletes.
Omeletes são práticas, por vários motivos. Não apenas são fáceis e rápidas de fazer, como a elas pode se incorporar quase que qualquer ingrediente que estiver à mão: queijos, presuntos, legumes, temperos, etc.
Conforme cresce em volume e ingredientes — especialmente com a adição de batatas — a omelete vai se convertendo numa fritada, prato de mais “sustância”. Nunca me aventurei por aí, entretanto.
Sem dúvida minha imperícia culinária contava para isso. Mas tenho também a tendência de me acomodar com escolhas que funcionam. Sou o tipo de pessoa que vai sempre aos mesmos restaurantes, e neles pede sempre o mesmo prato. Era apenas natural que em casa fosse parecido. E que o prato de escolha fosse a omelete ainda permitia também uma certa variedade, dentro do padrão.
Quando minha mulher veio morar comigo, espantou-se ao ver que as bocas do fogão, mal regulado, não soltavam mais que uma chama tímida, quase invisível. Acho que ela não sabia que omelete se faz com fogo baixo.
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Durante os anos 20 e 30 do século passado, Walter Duranty era o correspondente do jornal The New York Times em Moscou.
Duranty, um inglês mulherengo, além de corajoso ex-correspondente de guerra, foi contratado pelo jornal, em 1921, na tentativa de oferecer aos leitores um retrato mais fiel da realidade do regime russo, para além das sucessivas e errôneas previsões de supostos especialistas, a se crer nos quais a União Soviética estaria, eternamente, prestes a ruir.
Uma vez na Rússia, Duranty fascinou-se com o regime soviético e sua marcha forçada para a industrialização. Passou a defender — por convicção, ou conveniência, ou ambas — que a democracia nos moldes ocidentais era incompatível com a “alma eslava”. Para ele, o regime era sim autoritário e brutal, mas essa era uma consequência inevitável do caráter do povo russo.
A conclusão era simples: só um líder implacável como Stalin, o “homem de aço”, seria capaz de levar o país à modernidade.
Duranty estava em Moscou em 1930, enquanto era levada a cabo a política estalinista de coletivização das propriedades rurais na Ucrânia — cujo maior resultado foi uma fome generalizada que exterminou pelo menos cinco milhões de pessoas.
Mas seus textos, longe de denunciar a política soviética pelo que ela era — um crime contra a humanidade — limitaram-se nesse episódio à reprodução do discurso oficial. Os antigos proprietários eram apenas fazendeiros privilegiados, que se fundiriam “no fogo do trabalho” à massa proletária. A falta de alimentos era temporária, dizia ele, e não levaria à fome.
Foi nesse contexto que Duranty, numa coluna no jornal, cunhou a frase que, erroneamente atribuída a Stalin, passou a sintetizar a filosofia do seu regime: “para se fazer uma omelete, é preciso quebrar alguns ovos”.
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“Uma” omelete ou “um” omelete? Clássico caso do descaso paulistano com o gênero correto das palavras (é o mesmo com os plurais). No dicionário está “omelete, s.f.”. Substantivo feminino. Uma omelete, portanto.
É também um galicismo, mera reprodução da omelette francesa. A palavra mais correta em português seria “omeleta”.
Fico com o galicismo. Suspeito que uma omeleta não seria nunca páreo, em sabor e comodidade, para a omelete tradicional.
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Maquiavel nunca escreveu que “os fins justificam os meios”. Duranty, de certa forma, sim.
Sua frase, entretanto, vai além. Sua metáfora é também, indisfarçavelmente, um convite à violência. Em nome da omelete abstrata, idealizada (e nunca entregue), esmaguemos, sob os coturnos do poder, os que ousam se opor a nós. Os ovos.
Note-se que a quebra do ovo não é um efeito colateral da receita; não se trata aqui de excessos revolucionários, inevitáveis ou não. Pois o ovo é justamente a matéria-prima fundamental da omelete. Da mesma forma, o regime soviético não poderia se fundar senão sobre os cadáveres da classe dos proprietários. Era esse o seu princípio, uma decorrência lógica, no pensamento socialista, da dinâmica da luta de classes. E nesse sentido, a metáfora de Duranty não deixa de ser assustadoramente apropriada.
Coisas do passado. Por ora, desistimos, historicamente, de forjar, no fogo da revolução, o novo homem; de sonhar com a utopia socialista.
O anticapitalismo, entretanto, segue vivíssimo. Para não me desmentir, aí estão, nas nossas ruas, os Black Blocs: arrebentando agências bancárias, queimando ônibus, pichando automóveis e outros “símbolos do capital”. Quebram ovos, mas, diferente de Stalin, sem pensar em fazer deles omelete nenhuma. Quebram-nos, simplesmente.
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Um sonho de Fellini: uma noite, o cineasta é convidado por Picasso a visitá-lo na cabana onde morava. Picasso lhe prepara, ele mesmo, uma omelete com doze ovos, lhe oferece um guardanapo (“nada de manchas dessa vez”) e fala sem parar, a noite toda.
Uma anedota de Orson Welles: tão disseminada na Europa Ocidental era a reputação dos húngaros como bandidos e falsários, que se dizia que em seus livros de culinária a receita de omelete começava com a frase: “roube um ovo”.
Uma cena de Bosch: dentre os horrores do Juízo Final, um estranho monstro, mistura de homem e sapo, leva ao fogo uma frigideira contendo a cabeça e membros de um homem. Ao seu lado, dois gordos ovos, prontos para converter o conteúdo da panela numa suculenta omelete humana.
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Outra história revolucionária: em 1793, sob plena vigência do Terror, o Marquês de Condorcet vivia escondido numa casa de amigos em Paris.
Condorcet era um pensador iluminista por excelência. A um tempo filósofo, matemático e pensador político, era um defensor ativo dos direitos humanos. Abolicionista, argumentava pelo fim da escravidão nas colônias francesas. Na Assembleia Constituinte de 1791 defendera o direito das mulheres francesas ao voto, demanda que só se tornaria realidade em 1944.
Sua origem aristocrática, entretanto, não poderia passar incólume à paranoia do regime jacobino. Após se opor à execução de Luís XVI, foi tomado por traidor e, com base em acusações falsas, condenado à prisão.
No começo de 1794, Condorcet resolve fugir. Em trajes plebeus, caminha por dez quilômetros até a vila de Clamart, onde faz uma parada numa taberna e, faminto, pede uma omelete.
“Com quantos ovos?”, pergunta-lhe o taberneiro. “Doze”, diz o Marquês. Resposta suspeita. Na França do século XVIII, só um nobre poderia achar natural um jantar desse tamanho. Foi delatado, preso, e morreu em sua cela no mesmo ano.
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Num certo sentido, a crônica é uma espécie de omelete literária.
É ligeira, e prática. Quase qualquer ingrediente vai bem nela. Mesmo que misturado aos demais ali na hora, sem muita coerência.
Por um lado, crônica e omelete são raramente memoráveis (com honrosas exceções). Pouca gente dirá de uma omelete que tenha sido uma refeição inesquecível. É o mesmo com a crônica que se lê apressadamente no jornal ou na internet.
Por outro, é mais difícil se desapontar com uma omelete. Uma omelete ruim, realmente ruim, é quase difícil de fazer. Com a crônica é parecido. Sorte de quem cozinha, ou escreve.
(14/8/2013)