Debates sobre gênero na Escola e por que não podemos esquecer dos meninos

Ideologia de gênero virou um grito de guerra conservador, vazio e sem argumento. Acredito que, quando falam isso, as pessoas não têm nem idéia do que estão dizendo, e muito menos do que significa gênero.

Ainda que algumas educadoras e educares tenham suas abordagens para lidar com a transsexualidade na escola (e não escreverei sobre isso aqui porque minha opinião, todavia, é um pouco conflituosa), e, inclusive, muitas feministas se juntem ao argumento conservador para evitá-las, os debates de gênero na escola, obviamente, não tangem apenas as questões de identidade.

A educação pela igualdade de gênero, e, por suposto: racial, de classe, religiosa e de qualquer combate a relações de poder, começa lá no berçário. Nas canções de ninar, nos livrinhos, nos brinquedos, nas referências, no vocabulário e no espaço físico. No trato e cuidado com os bebês e familiares.

Educar por igualdade é conversar com bebês em uma linguagem inclusiva: que é cansativa, parece errada, mas é assim. Sem X, sem arroba, sem E para neutralizar gênero. Enquanto realmente não exista a possibilidade real de uma mudança na gramática, ensinemos a linguagem inclusiva com o que temos: todas e todos. Meninas e meninos. Amigos e amigas. Elas e eles. Sinônimos com gênero neutro. Possibilidades não faltam!

Esses dias, nos corredores da Universidade, escutei uma garota dizendo que não aguentava mais a professora sempre expressando as palavras no masculino e no feminino quando se dirigia aos estudantes. Quase me entrometi e confessei que, às vezes, também me irrito um pouco.

No entanto, nos irritamos porque passamos toda a infância acostumadas a ter nosso gênero apagado e falar sem sermos chamadas tornou nossa estratégia de sobrevivência. Naturalizamos o apagamento porque aprendemos a sobreviver com ele. O inconsciente está sempre ali. Em uma classe de 30, quase sempre só duas ou três meninas realmente se expressam. E, quando o fazem, saem como sabichonas ou briguentas.

É claro que uma linguagem inclusiva e brinquedos que não reforcem esteriótipos não nos salvam dos mil estímulos que esses pequenos recebem e receberão em outros espaços, e não serei tola de acreditar que vou mudar o mundo com isso, uma vez que problemas estruturais são sanados com políticas públicas, incentivos e mudanças sociais, que, infelizmente, levam tempo. Ainda assim, micro ações também são ações e não custa nada colocá-las em prática.

Vale ressaltar, e confesso que levei um tempo para lidar com isso, que a educação pela igualdade de gênero é tão importante, ou mais, para os meninos. E não estou numa tentativa de sucumbir ao patriarcado e, como sempre, colocar os homens em posições privilegiadas. Levei tempo, talvez anos, para compreender isso.

Meninos não são homens. Crianças são crianças. Os meninos não nascem sabendo do poder que, social e estruturalmente, exercem sobre as mulheres, e, apesar de termos em conta todos os milhões de estímulos que receberão para saber disso, fazemos nossa parte para tentar, ao menos, motivá-los a questionar esse poder.

E como fazemos isso?

Não é com um power point sobre feminismo. Não é com uma conversa sobre o que é patriarcado*. Com um horário semanal de histórias de igualdade, enquanto todos os outros horários são ocupados pela reprodução das opressões e esteriótipos.

Igualdade não é uma disciplina na escola: é a própria escola. Os espaços. As brincadeiras. Os livros — e todos, não alguns. O bom dia. As músicas. Os bonecos e bonecas. As cores. As roupas. A linguagem. A igualdade de oportunidades para que as pequenas e os pequenos se expressem, escolham, debatam e reflitam sobre o mundo e sua doce existência.

Conheci muitas professoras, algumas, inclusive, sem tanto contato com os debates de gênero na educação, que faziam do espaço escolar um ambiente democrático, igualitário e livre de opressões. Enquanto outras faziam uma atividade lacradora uma vez por semana e logo, em todos os outros dias, reproduziam esteriótipos e expectativas sobre as crianças que eram baseadas em comportamentos opressores, tanto para os meninos como para as meninas.

O ponto, aqui, é entender que empoderar meninas, apesar de muito importante, não nos ajuda a frear a fonte. Frear esses serezinhos doces e amáveis que, sem uma educação combativa, se tornarão homens opressores.

Por que somente educar as meninas a saberem lutar contra a opressão exercida pelos homens quando também podemos frear, ou ao menos desacelerar, a execução desse poder?

Educando sobre respeito, consentimento, expressão de afeto, raiva, dor e tristeza. Lembrando, de maneira leve e clara, que corpo não é mercadoria. Meninos choram e devem chorar. Não naturalizando comportamentos violentos. Não achando graça em reprodução de relações de poder entre crianças, sejam elas de qualquer origem. Estimulando uma educação democrática, igualitária e livre para nossas meninas e nossos meninos.

  • As conversas, os debates e os conceitos são importantes e devem ser feitos, sempre numa linguagem acessível e possível. Ainda assim, essas medidas, sozinhas, não surtem muitos efeitos.