A maternidade da professora negra

Talvez nunca tivesse percebido o papel que a escola, crianças e pais tentam atribuir a nós professoras negras no ensino fundamental. Meus olhos sempre foram atentos desde pequena para buscar os meus iguais, porém, agora que mudei de posição, continuo os procurando e não os encontro. Por quê? Antigamente era aluna negra e agora sou a professora negra. O que esperam de mim?

É necessário antes de tudo fazermos uma análise rápida. Onde se encontram as/os professoras/res negras/os? Não estão na universidade. Esses pertencem um número reduzido do corpo docente. No ensino médio? Existem alguns, mas ainda são minoria. Onde estão? Nós nos encontramos na Pré-escola e Ensino fundamental. Enquanto na universidade não uso todos os dedos para contar quantos professores negros encontrei durante minha presença na mesma, na escola, especialmente nas turmas de alfabetização minhas mãos tornam-se insuficientes. O por que desta situação?

A minha mente busca por respostas desde que me confrontei pela primeira vez com essa situação em sala de aula: Uma professora negra em uma sala predominante branca do pré- II. Enquanto todas as outras professoras brancas gritavam em sala de aula, a professora negra chamava atenção e interpretava um papel maternal e foi assim que a minha ficha caiu: Somos professoras, mas continuamos interpretando o papel de mães para crianças brancas.

Não estou dizendo que professoras devem gritar — acredito que seja desgastante e agita a criança — porém, é perceptível a forma com que essas crianças buscavam afeto na professora negra. Constantemente levantando, pedindo abraços, dizendo eu te amo e perguntando se a mesma os amava. Brigavam e indo de encontro à ela pedindo colo ou afago na cabeça. Acertavam e pulavam de emoção. Os pais chegavam e começava o drama de não conseguir soltar a professora. Você faz o papel de uma ótima professora — ouvi um dos pais dizendo isso para a mesma. E a mesma não é professora? Ela não está interpretando.

O fato de crianças assimilarem o espaço escolar como extensão de sua casa é real, especialmente quando a mesma busca chamar seus professores de “tia ou tio”, porém, observar como o afeto é desenvolvido sobre algumas pessoas e outras não é de chamar atenção, em especial, quando elas tentam empurrar sobre mim esse mesmo papel!

Quando pisei pela primeira na sala de aula houve um espanto por minha aparência — falei sobre isso em outro momento, mas depois da adaptação, deixei de ser a Débora estranha para me tornar a Tia Débora. As crianças corriam em minha direção para saber da minha vida. Corriam para poder me abraçar constantemente. Choravam e buscavam meu colo. Queria poder dizer que isso aconteceu apenas enquanto estava presente no Pré-II, porém, no Pré-III e no 3º ano do fundamental as reações foram as mesmas. As crianças não buscavam em mim o papel de apenas orientadora, mas buscavam uma atenção materna. Isso é tão evidente quando pai chama e a criança quer permanecer segurando meus dedos e me pede para ir até o portão e dizer tchau. Isso acontece com vocês? — Cheguei perguntar outros estagiários brancos, mas se negaram. Eles são auxiliadores, tiram dúvida ou apenas uns sorrisos.

O que esperam de nós depois de tudo isso? Não esperam que nós negros venhamos buscar alcançar as universidades. Não, isso é demais. Faltam escrever que nós não somos capacitados. Porém, nos querem nas creches, no pré-escolar e no ensino fundamental. Nos querem ainda fazendo o papel de babás ou de mães negras. Estão nos configurando desta forma. Porém, o que a escola ou os pais não percebem é o quanto a autoimagem de um professor negro interfere na criação de seus filhos. Bem, isto ficará para o próximo texto.