A primeira visita no bairro Feitoria

Entrei por aquele portão já pouco pensando sobre a tal conversa/entrevista que teria que ter com aquela família: a verdade é que fazia tanto calor que eu desejava apenas uma cadeira abaixo de uma sombra para descansar. Dei tantas voltas naquele bairro e só conseguia pensar “por que nos fazem usar esses jalecos num calor de 30 graus?”. Talvez, se minha memória não me trair, tudo tenha de fato começado com essa minha vontade de respirar um pouco e pedir um copo de água. Suor escorrendo pelas costas, mãos inchadas e aquele leve desconforto causado pelo calorão. Foi assim que iniciei a minha primeira experiência com meus pacientes, aqueles de quem eu tanto queria cuidar e com quem eu tanto idealizei diálogos. Prontamente, fui convidada para entrar na residência pela Isabel, mãe da menininha mais sorridente que já conheci. Confesso que o cenário foi completamente diferente daquilo que arquitetei na mente: fantasiei uma família imensa recebendo-me carinhosamente, todos sorridentes e gratos pela minha atenção. A verdade é que a imaginação é sempre mais poética do que a realidade e que, por isso, precisamos colorir um pouco os fatos para não desapontarmos nossos projetos. Isabel estava acompanhada da sogra, uma mulher de estatura baixa e com feições sérias. Além delas, havia apenas a pequena menina de quase três anos, um encanto dos fios do cabelo aos dedinhos dos pés. Antes de entrar na moradia, atentei para colocar primeiro meu pé direito – não sou de superstições, mas é aquele ditado “yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”. Toda sorte é sempre bem vinda, melhor a prevenção do que o remédio (aliás, não é esse o princípio da medicina de família?). Entrei com o pé direito e, rapidamente, Isabel chamou-me para sentar. Como ela não sinalizou exatamente o local onde queria que eu sentasse, fiquei um pouco confusa “cadeira ou sofá, sofá ou cadeira?” e essa não era uma pergunta tão simples. Afinal, que rumo eu daria para aquela situação? Conversa formal ou descontraída? Cadeira ou sofá? Decidi que a escolha era dela e esperei que a dona da casa sentasse primeiro. Cadeira. Não sou muito de formalidades, mas lá fomos nós. Abri meu pequeno bloco de anotações e comecei a fazer algumas perguntas sobre ela, sobre a pequena Evelin e sobre a família. Notei que a mulher estava tão tímida quanto eu e sabia que precisava quebrar essa barreira que jamais deveria ter entre nós duas. Foi nesse momento que decidi contar a ela que eu jamais havia estimulado uma conversa assim com alguém antes e que era uma pessoa demasiadamente tímida, o que é puramente verdade. Falei a ela que precisava perder minha timidez e que, para isso, necessitava praticar em situações como essa que estávamos vivendo. Mais uma vez, a sinceridade não me decepcionou: Isabel entendeu-me completamente e disse-me para ficar tranquila, que ela também era uma pessoa envergonhada mas que não havia motivos para isso. E então as cortinas caíram e conseguimos nos enxergar como seres humanos iguais, que compartilham sentimentos e pensamentos similares. Ajudamos uma a outra e a conversa tornou-se leve. Em alguns instantes, senti falta da pequena Evelin, mas a mãe havia me explicado que a criança era tão tímida quanto nós duas e que, por esse motivo, não queria estar conosco. Enquanto fiz minhas anotações, a menina brincou com seus carrinhos e correu atrás da avó paterna. Sei porque ouvi suas conversas no fundo da casa e instintivamente constatei que estavam bem. De tudo que vi e analisei naquela residência, o que mais me intrigou foram os brinquedos da garotinha. Por tratar-se de uma criança do sexo feminino e por causa das construções sociais existentes, logo se supõe que a casa esteja repleta de bonecas, panelinhas e uma penca de coisas cor de rosa. Entretanto, deparei-me com uma criança criativa que gosta tanto de bonecas quanto de carrinhos! Inclusive, segundo sua mãe, ela passa a maior parte do tempo brincando com seus caminhões e envolvida não com um mundo cor de rosa, mas com uma dimensão colorida. Não lembro com clareza como e porquê, mas, em alguma circunstância, peguei uma pequena máscara do Homem de Ferro na mão e indaguei “tu gosta desse herói?”. A menina puxou o brinquedo e pôs em seu rosto, saiu pulando e depois devolveu-me o objeto. Isabel disse a mim que sua filha é apaixonada pelo personagem da Marvel, o qual ela chama carinhosamente de “Zoinho”. Senti aquele calorzinho gostoso no coração, pois finalmente eu e a criança tínhamos algum gosto em comum, e esse seria nosso vínculo. Enfim eu havia encontrado formas de criar essas pontes invisíveis com a tal família que eu tanto queria atender. Infelizmente, o tempo foi raso e a conversa curta. O assistente da minha micro área bateu palmas na frente da casa: hora de ir embora, eu sabia. Despedi-me das três com a sensação de dever cumprido, mas também com aquela vontade de querer ficar um pouco mais e estender os minutos. Abracei fortemente Isabel e a menina, nada de formalidades, internamente eu era despida daquele jaleco branco. Disse a elas que em breve iria voltar, agradeci a atenção e caminhei em direção ao assistente – rumamos ao posto de saúde do bairro. Assim realizou-se minha primeira visita como uma breve experiência da medicina de família. A realidade não me deu a oportunidade de criar uma poesia florida. Entretanto, os fatos foram suficientes para elaborar uma crônica: a crônica sobre meus primeiros pacientes.

Like what you read? Give Débora Scariot a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.