Ser exatamente aquilo que se é

Quem me conhece sabe que eu costumo ser bastante reservada em relação aos assuntos que dizem respeito à minha vida pessoal. Eu me policiei ao longo da vida de modo a não dar margem a comentários maldosos, pois sabia desde a mais tenra idade o peso das convenções sociais, das palavras e da reputação.

Todo esse cuidado, de fato, tem me protegido de uma série de infortúnios. No entanto, o mesmo silêncio que me dá a falsa sensação de conforto também traz como consequência a invisibilidade. Entre os não ditos do cotidiano, fui jogando uma cortina de fumaça sobre o meu verdadeiro eu. A cada pergunta a que eu era submetida sobre “namoradinhos” e “futuros maridos” — que nunca existiram —, eu via escapar por entre os dedos a oportunidade de mostrar a minha verdadeira face.

Há uma frase bastante famosa de Paulo Leminski que diz que essa coisa de querer ser exatamente aquilo que nós somos, um dia, há de nos levar mais além. Eu concordo, pois sou uma mulher negra e lésbica, que ama e, acima de tudo, respeita profundamente outras mulheres. E não vai ser nenhum fundamentalismo religioso, de quem quer que seja, que vai me impedir de ir mais longe e alcançar a minha felicidade. Não digo que é fácil, porque definitivamente não é. Mas essa é a minha verdade, não é uma fase passageira.

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