Agora você me conhece

Há bastante tempo quero escrever isso — que na verdade ainda não sei o que vai ser. Tenho me preparado e, na verdade, também não me sinto pronta ainda. E bem, não tenho motivo nenhum para escrever nada disso. Além da mais sincera vontade de tirar do peito e esclarecer bem esclarecido.
Não tenho nenhuma história de vida de grande superação. Minha mãe sempre chora quando fala do que vivi, mas ela é mãe, né? Se você se emocionar também, favor entrar em contato.
Nasci em 17 de julho de 1996. A gravidez foi tranquila, o parto foi tranquilo e nasci dentro do tempo esperado. Mas, logo nos primeiros dias de vida, meus pais e médicos começaram a notar algo de errado. Primeiramente meu coração não funcionava muito bem. Era como se o batimento dele fosse muito fraco. Além disso eu tinha diversas intolerâncias alimentares (as quais demoraram uma eternidade para serem diagnosticadas). Talvez por causa da intolerância, tinha um refluxo terrível também. Cada colherada de papinha tinha que ser dada com um intervalo de 10 minutos para que eu não vomitasse. E por fim, uma respiração a desejar: sempre barulhenta e cansada. Junta tudo isso e você tem uma neném subnutrida, que cabe dentro de uma caixa de sapato, e vive de médico em médico, recebendo a cada dia uma nova sentença de morte.
Enfim, sobrevivi. A história do tratamento fica para outro dia, mas deixo claro que esse texto não é psicografado (risos) e que de fato estou viva. Entretanto, sempre fui a preocupação da família, todos estavam sempre vigias com minha saúde por causa da infância. Por algumas outras vezes, passei pertinho de me lascar com a morte. Tive herpes zoster, uma doença viral que abre erupções na pele que doem muito. O problema é que tive na cabeça e o risco de penetrar a caixa craniana e atingir a meninge estava lá (era pra ter acontecido mais ou menos isso aqui comigo). Houveram alguns outros sustos, mas esse não é o foco deste texto.
Quando olho para tantos motivos que tinha para não estar aqui, me pergunto: o que eu fiz para merecer? Ainda bebê, balançada no colo da minha preocupada e chorosa mãe, o que eu fiz para merecer vencer tudo isso? Hoje em dia olho para mim e em tantos momentos me pego sendo hipócrita, mentirosa, ingrata, egoísta, injusta… É a minha natureza humana! Como eu poderia ganhar tantas chances para sobreviver mais um dia? Bom, acontece que também é da minha natureza humana buscar explicações racionais e lógicas para tudo. E por muitos anos procurei, sofri, cavei dentro de mim algo que me auto justificasse. Algo grandioso o suficiente que me fizesse colocar a cabeça no travesseiro e pensar “uau, ainda bem que sou isto!”.
E você pode até me dizer, “mas Débora, você tem essas e essas qualidades!”. Entenda, não estou falando de qualidades. Nenhuma de nossas qualidades anulam nenhum dos nossos defeitos. Estou falando de algo que me salve de mim mesma, do meu mal. Algo em mim que me faça merecer as tantas chances que ganhei.
Agora vou contar uma breve história, que no fim se fundirá com minha história.
Era uma vez um rapaz, filho de um rico pai. Eis que um dia este rapaz diz ao seu pai: “Pai, quero receber logo minha herança. Me dá o que é meu”. E o pai lhe dá. O filho então sai de casa e gasta toda sua grana das formas mais egocêntricas possíveis. Em nenhum momento o filho questiona o verdadeiro significado daquilo com que gastava o dinheiro. Ele chega em ao ponto em que tem que dormir com os porcos, em alguma fazenda alheia, e com os porcos dividir a comida. Não havia lhe restado nada. Em casa, o pai sofre. Decepcionado, triste, até com raiva pela ingratidão do filho, contudo com saudade. Até que um dia, o filho volta arrependido. A reação do pai? Manda servir o melhor banquete, dar as melhores roupas e bens para o filho, faz festa pois ele voltou.
Talvez para você essa tenha sido a história de um filho mimado. Mas ela é a minha história. Todos os dias, eu sou o filho ingrato. E todos os dias sou recebida de volta, com braços de amor.
Nunca encontrei algo que justificasse a minha vida, se não o amor de um Deus misericordioso. Todos os dias sou tola, egoísta. Todos os dias me vejo muito preocupada comigo mesma, com meu próprio umbigo, com o que quero fazer com as minhas riquezas. E todos os dias me percebo pobre, incapaz, fraca e suja. Suja por minha maldade humana. E nessa imundice, todos os dias sou coroada, recebida com festa e amada da forma mais absurda possível.
Amigos, eu sou cristã. Sim, acredito em um Deus que saiu de sua plena paz para deliberadamente vir viver esse caos que é o mundo. E sendo Homem, ele foi o cara mais gente fina que já se viu. Só tratou todo mundo com amor. Era compreensível com a dificuldade de todos. Curou doentes, ressuscitou mortos, se sentou com prostitutas, perdoou as adúlteras. E ainda assim, foi rejeitado, cuspido, torturado, crucificado e morto. E ao invés de reclamar da ingratidão das pessoas, ele perdoou cada uma, amou cada uma. Por fim, ele ressuscitou. Sambou na cara da galera.
Não entrarei em questões religiosamente doutrinárias aqui. Minha intenção é meramente dizer que hoje sei o significado que minha vida tem. E honestamente eu não mereço o que tenho. Não tem nada que me faria merecer, na verdade. Sou grata, eternamente grata, porque olho para Deus e vejo que tenho vida de verdade. Ele é a razão de tudo. Não acredito nele só pelo que ele fez por mim. Ele não precisava me salvar, eu nem mesmo merecia. Acredito nele porque ele é e ponto. Ele é Deus e merece adoração.
Então meu intuito com esse texto? Não é te convencer a respeito de um Deus (apesar de que crença ou descrença de ninguém não altera quem ele é). Também não é dar nenhuma lição de moral. Minha mais sincera intenção era mostrar a você, que talvez seja meu amigo, meu colega de trabalho ou conhecido de Facebook, que as pessoas são muito mais do que pensamos. Talvez você não fizesse ideia de nada disso sobre mim e eu vim fazer questão que você saiba. Afinal, minha fé é minha razão de viver e é o que tenho de mais importante.
Então sempre que olhar para mim e ver algo de bom, saiba que não vem de mim. Sempre que olhar para a forma como eu vivo e admirar, saiba que não vem de mim. Sempre que ver algo inspirador em mim, saiba que não vem de mim. Soli Deo gloria.