Não é pra mim

As histórias de diagnóstico de câncer são comumente muito parecidas. O paciente começa a sentir uma dor atípica, a qual ele não dá muita importância. É aquela dorzinha do lado, aquela dor na perna, aquela dor de cabeça, que vem e vai, que dói pouco ou muito, e a qual se acostuma. A gota d’água nem sempre vem em um dia catastrófico. Muitas vezes, em um exame de rotina, é necessário que um médico mostre que há algo de errado e que não dá mais para fugir. De repente aquela dor começa a explicar tantos outros problemas e vira um grande furacão. Somente quando o paciente ouve que sua vida está em risco é que ele decide dar atenção àquela dor.


Já parou para pensar como as pessoas nunca estão satisfeitas? Não é incomum conhecer quem tenha um bom emprego, uma família bacana, amigos verdadeiros e ainda assim, é infeliz. Pessoas deprimidas frequentemente têm de ouvir “mas você tem tudo, o que falta para você ser feliz?”. E suas respostas são sempre as mesmas: existe um buraco, um vazio, que nem as coisas mais puras e lindas do mundo, mais honestas e valiosas, preenchem. “Quando eu passar no vestibular, tudo vai mudar”. “Quando eu me casar, aí vou me contentar”. “Quando tiver meu filho, esse vazio vai ser preenchido”. Não. Todas elas ainda são acometidas por aquela dorzinha, que há anos está ali, mas nunca é investigada. Em crises a dorzinha vem, incomoda, levanta mil questionamentos. E então é deixada para trás e ignorada. Até voltar na próxima crise. Como num câncer, aquela dorzinha passa a consumir mais e mais partes, silenciosamente.


Acho no mínimo curioso quando percebo alguns de meus amigos olhando para minha fé e pensando “isso não é para mim”. Admiram, acham legal, acham bonito. Não entendem muito, não veem muito sentido, entretanto ficam intrigados com a forma como funciona para mim. Mas é, continuam pensando “não é para mim”. Às vezes até têm algum tipo de fé cristã, mas não querem comprar o “pacote completo”, porque afinal… “não é pra mim”. O estilo de vida, a devoção, a piedade… Isso tudo não é pra você, você não precisa levar tão a sério. Prefere continuar sendo o guia da sua caminhada e pedindo socorro somente quando já está perdido.


Daquela hora em diante, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo.
Jesus perguntou aos Doze [discípulos]: “Vocês também não querem ir? “
Simão Pedro lhe respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna.
Nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus”.
João 6:66–69

O Apóstolo Pedro sempre foi meu favorito. Por vezes paga de sabichão, mas sempre que quebra a cara, reconhece sua pequinez e que, sem Jesus, não é nada. A empatia me é automática nesse trecho. Muitas vezes tentei dizer para mim mesma que a fé cristã não era para mim. Pelo menos não como eu via nos outros. E assim busquei tantas outras saídas. Tentei andar pelos meus próprios pés, tentei acreditar no acaso, tentei viver de tiros no escuro. E honestamente? Tudo que encontrei foi aquela dorzinha de lado voltando sempre em meio às crises. Até que entendi que a qualquer momento o tarde demais poderia chegar.

Tentar andar por si só é um fardo insuportável. É um lento suicídio. É todos os dias morrer um pouquinho mais, sem esperança para o que te espera no fim dessa batalha. É tornar-se escravo de si. É apostar suas fichas em cada conquista e se castigar por não ter encontrado aquilo que você estava procurando. Chega o dia em que se entende que é preciso render-se, confessando que não tem mais para onde fugir, se não para algo muito mais eterno do que seus pequenos momentos.

“Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna.”

A você que tem a sua dorzinha de lado: o Cristianismo é para você. A você que já cansou de apostar suas fichas na próxima conquista, Cristo é para você. A você que não aguenta mais carregar seu próprio fardo, a Cruz é pra você. A você que daria tudo para poder começar do zero, o Sacrifício foi por você. A você que não sabe mais para onde correr, a redenção é para você.

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.
Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas.
Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.
Mateus 11:28–30