Eu apenas adoro o enquadramento.
Na barulhenta praça de alimentação de um shopping qualquer — porque no fundo todos os shoppings são tão iguais — , eu conversava banalidades cotidianas com um conhecido meu de longa data quando, em determinado espaço de tempo, ficamos sem assunto. Percebendo o leve constrangimento que se instalara entre nós, ele prontamente arrumou outro papo:
— Dé, por que você ainda usa óculos? Sabe, já existe cirurgia para correção de miopia. É miopia mesmo o seu problema, né?! Dizem que a eficácia dessa cirurgia é bem alta, acho que de cada 10 cirurgias umas nove são totalmente bem sucedidas. Você vai ter mais liberdade, vai poder ir a um cinema 3D sem ter de colocar óculos em cima de óculos, o que é bizarro…
Devidamente acomodada em na cadeira de alumínio do shopping, repousei minhas mãos sobre a mesa com todos os meus dedos entrelaçados. Tinha ouvido atentamente a tudo o que ele disse e, claro, já tinha a minha resposta na ponta da língua.
— Oh sim, já pensei tanto nessa cirurgia. Lentes de contato sempre me causaram agonia e repugnância. É uma opção tentadora, mas acontece que eu gosto mesmo de óculos. Eu adoro o enquadramento que a armação me dá, sabe?! Como se fosse uma janelinha me indicando exatamente pra onde eu devo olhar. Essas linhas, que ficam aqui na minha visão periférica, de certo modo me servem como uma demarcação de que eu posso simplesmente olhar pra frente e literalmente ter foco naquilo que for essencial. Acaba servindo de metáfora pra vida. O mundo tem muito ruído visual e eu não preciso ver tudo. Estou bem assim. Quanto ao cinema 3D, sinceramente não faço tanta questão assim.
Eu disse tudo aquilo com um inevitável sorriso no rosto. Ele riu um pouco também. Passamos para um outro assunto enquanto tentávamos enxergar alguma poesia na vida ainda que estivéssemos na barulhenta praça de alimentação de um shopping banal quanto qualquer outro shopping do mundo.