O copo quebrou
Sabe quando um copo de vidro cai no chão e se fragmenta todinho? Ou então quando uma xícara de porcelana choca-se em algo e compromete sua integridade de forma que parte dela acaba lascada? É evidente que minhas comparações não têm nenhuma dimensão genial, mas sequer poderiam ter, já que minha própria postura não vem sendo tão brilhante como deveria. Havia esse copo que muita gente por aí pensava ser de vidro, mas que eu, investigadora ou ingênua que sou, insisti em acreditar que era de cristal. Confiei demais na minha percepção porque corriqueiramente uso esses copos antigos de vidro para beber água e saciar minha sede. A gente sempre sente essa sede, embora não saibamos de que. Por esse motivo, imaginei que saberia diferenciar o material que constitui a taça: vidro é vidro, cristal é cristal. Simples assim, menina. A realidade é que me embaralhei com essa situação, meus pensamentos formaram um emaranhado de perguntas sem respostas e não consegui parar para respirar. Eu faço muito isso: paro, respiro, 1, 2, 3, 4, … respira, respira, e agora me-diz-qual-é-o-pensamento-mais-racional-que-se-pode-ter-diante-disso? 1, 2, 3, … ah, claro, obviamente eu deveria pensar dessa forma, é essa a ideia a ser aderida e fim. Eu faço muito isso. Fácil assim, menina.
Mas não vou mentir, nesses últimos tempos não está sendo fácil. A parte mais gritante do meu ser (a que pensa) está sendo calada, e não quer se calar. Esse maldito sistema nervoso decidiu que esse corpo deveria sentir um pouco mais. Acabei viciando meu organismo com esses altos níveis de oxitocina e vasopressina.
Por viver nesse odioso conflito interno, deixei o copo quebrar. Já pouco me importa o seu material: cristal, vidro, bosta, não importa. Já viciei meu corpo com essa droga – malditos neurotransmissores! De qualquer forma, o copo quebrou. Houve essa queda que relatei e, inevitavelmente, rachou. Em um primeiro momento, pensei até que havia se esfarelado no chão, mas então percebi que os pedacinhos de vidro/cristal/bosta ainda não eram pó. Eram apenas pedacinhos dispersos pela superfície. Entretanto, eram pedacinhos. E então eu abro caminho para o cérebro fazer sua parte: é possível colar esses pedacinhos e tentar consertar esse pobre copinho? Claro que é possível. Simples assim, menina. Mas existe a possibilidade apenas de tentar ajeitar o recipiente. A verdade é que esse copo cheio de remendos, fendas e cola jamais saciará essa sede que devora. Não vou fantasiar, agora sou cérebro e esse vício tem que acabar. É fato que minha sede ele conseguia aniquilar, mas agora duvido que, do jeito que anda, conseguirei me hidratar.
